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Resumo: Diplomacia, de Kissinger — Capítulo 2 — As vertentes

Close da capa do livro Diplomacy, de Henry Kissinger. A imagem mostra grandes letras serifadas marrons formando Henry Kissinger na metade superior, uma linha horizontal preta fina no centro e o título vermelho Diplomacy abaixo sobre fundo branco liso, sem pessoas, sala, paisagem ou cena histórica.

Capa de Diplomacy, de Henry Kissinger, usada como imagem compartilhada desta série de resumos.

Em 1994, Henry Kissinger publicou o livro Diplomacia. Ele foi um acadêmico e diplomata renomado, tendo servido como Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado dos Estados Unidos. Seu livro oferece um extenso panorama da história das questões internacionais e da arte da diplomacia, com foco particular no século XX e no mundo ocidental. Kissinger, conhecido por seu alinhamento com a escola realista das Relações Internacionais, trata dos conceitos de equilíbrio de poder, razão de Estado e Realpolitik em diferentes épocas.

Sua obra foi amplamente elogiada pelo seu alcance e pelo seu detalhismo. Todavia, ela também enfrentou críticas por seu foco em indivíduos em detrimento de forças estruturais, e por apresentar uma visão reducionista da história. Além disso, alguns críticos também alegaram que o livro se concentra excessivamente no papel individual de Kissinger nos eventos, potencialmente superestimando sua influência sobre eles. De qualquer forma, as ideias do livro merecem ser consideradas.

Este artigo apresenta um resumo das ideias de Kissinger no segundo capítulo de seu livro, cujo título é "As vertentes: Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson".

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A combinação de interesse e princípio na República inicial

Kissinger começa mostrando que o excepcionalismo estadunidense nunca foi uma simples rejeição ao poder. Na República inicial, os líderes dos Estados Unidos usaram as rivalidades europeias com habilidade considerável, porque o interesse nacional imediato do país era sobreviver. Os Estados Unidos poderiam permanecer independentes enquanto a França e a Grã-Bretanha se contivessem mutuamente. A neutralidade durante as guerras revolucionárias e napoleônicas refletia esse cálculo. A descrição de Jefferson, que via a França como um tirano terrestre e a Grã-Bretanha como um tirano oceânico, tornava os dois beligerantes moralmente equivalentes. O efeito prático era estratégico: a neutralidade preservava margem de manobra e aumentava o poder de barganha estadunidense.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos nunca permitiram que a hostilidade à diplomacia do Velho Mundo impedisse a expansão territorial. Por meio de tratados depois de 1794, melhoraram sua posição ao longo do Canadá e da Flórida, abriram o Mississippi ao comércio e fortaleceram as trocas com as Índias Ocidentais britânicas. A Compra da Louisiana, em 1803, deu então aos Estados Unidos uma imensa base territorial a oeste do Mississippi e ajudou a criar as condições para o status de grande potência. Napoleão explicou a venda em termos clássicos de equilíbrio de poder, imaginando que havia dado à Grã-Bretanha um futuro rival marítimo. Os estadistas estadunidenses aceitaram o benefício sem aceitar a justificativa europeia, pois tratavam a expansão pela América do Norte como desenvolvimento nacional interno, e não como problema de política externa.

Essa distinção permitiu aos líderes estadunidenses combinar condenação moral da guerra com uma busca determinada por poder continental. Madison denunciava a guerra como fonte de exércitos, impostos e instrumentos de dominação. Monroe defendia a expansão porque o território aumentava os recursos, a população e a segurança do país. Na interpretação de Kissinger, os Estados Unidos podiam manter essa dualidade porque a geografia lhes dava uma margem de segurança desconhecida pelos Estados europeus. As potências europeias formavam coalizões contra possíveis mudanças no equilíbrio, pois sua sobrevivência podia ser ameaçada por possibilidades. Os Estados Unidos, protegidos pela distância e pela força crescente, podiam esperar até que um perigo se tornasse real.

O aviso de Washington contra alianças permanentes surgiu dessa posição geopolítica, mas os estadunidenses passaram a tratá-lo como princípio moral. Os oceanos que separavam os Estados Unidos da Europa foram interpretados como prova da providência, e não como vantagem estratégica. Por isso, os estadunidenses muitas vezes atribuíram sua liberdade em relação aos envolvimentos europeus a uma visão moral superior. Essa foi a base de uma crença estadunidense recorrente: a Europa sofria com a guerra porque seus governos e métodos diplomáticos eram corruptos, enquanto os Estados Unidos incorporavam uma ordem política capaz de apontar para um mundo mais pacífico.

Kissinger acompanha essa crença em Jefferson e Paine. Jefferson argumentava que nações e indivíduos deveriam ser julgados pelo mesmo sistema ético. Paine tratava a guerra como produto de falsos sistemas de governo, e não da hostilidade natural dos povos. Dessa premissa veio a ideia estadunidense duradoura de que a democracia favorece a paz. Hamilton havia desafiado essa suposição ao observar que repúblicas da Antiguidade e a Grã-Bretanha constitucional haviam travado guerras frequentes, mas seu ceticismo permaneceu marginal. A maioria dos líderes estadunidenses acreditava que os Estados Unidos tinham um dever especial de promover a liberdade, mesmo quando discordavam sobre se esse dever exigia promoção ativa no exterior ou apenas o exemplo de uma república bem-sucedida em casa.

A primeira resposta favoreceu o exemplo em vez da cruzada. Jefferson imaginava os Estados Unidos como uma demonstração prática de autogoverno republicano, um “monumento permanente”, e não um missionário armado. Ainda assim, Kissinger enfatiza a ambivalência criada por essa posição. Os Estados Unidos rejeitavam a afirmação europeia de que a necessidade de Estado poderia justificar condutas proibidas aos indivíduos, mas também queriam os benefícios do poder e da expansão. A formulação de Robert Tucker e David Hendrickson sobre a arte de governar jeffersoniana capta o dilema. A América queria renunciar aos meios tradicionais de poder enquanto preservava as ambições que esses meios costumavam servir. Por volta de 1820, o compromisso era condenar a política europeia de equilíbrio de poder do outro lado dos oceanos e tratar a expansão pela América do Norte como destino manifesto.

A Doutrina Monroe e a hegemonia continental

A Doutrina Monroe deu a esse compromisso sua forma diplomática mais importante. John Quincy Adams expressou a antiga contenção em 1821, quando disse que os Estados Unidos desejavam o bem à liberdade em toda parte, mas não iam ao exterior procurar “monstros para destruir”. A outra face dessa contenção era a determinação de manter a política de poder europeia fora do Hemisfério Ocidental. A doutrina nasceu da crise causada pelo esforço da Santa Aliança para suprimir a revolução na Espanha e pela possibilidade de que potências europeias agissem contra as antigas colônias espanholas na América Latina.

O secretário britânico das Relações Exteriores, George Canning, propôs uma ação anglo-estadunidense conjunta para impedir o controle europeu sobre a América Latina. Adams entendia o objetivo britânico, mas desconfiava dos motivos de Londres, sobretudo tão pouco tempo depois da Guerra de 1812. Por isso, aconselhou Monroe a agir unilateralmente. O resultado foi uma doutrina que transformou a separação de Washington em relação à Europa em regra recíproca: os Estados Unidos evitariam as guerras europeias, e a Europa deveria evitar os assuntos das Américas. Como Monroe definia os assuntos americanos como os de todo o Hemisfério Ocidental, a doutrina foi expansiva desde o início.

Embora os Estados Unidos não tivessem poder militar para impor a doutrina sozinhos, a marinha britânica lhe deu apoio prático. Esse fato permitiu aos Estados Unidos aproveitar o benefício estratégico sem admitir dependência do poder britânico. Sob o guarda-chuva da doutrina, a América podia expandir seu comércio, sua influência e seu território enquanto insistia que não praticava política de poder. Na formulação condensada de Kissinger, a política externa estadunidense do século XIX foi muitas vezes uma recusa a ter política externa. Os Estados Unidos podiam prevalecer sobre povos indígenas, México e Texas, e tratavam essas ações como parte do desenvolvimento nacional, não como diplomacia.

Ao longo do século, a Doutrina Monroe passou de advertência contra intervenção europeia a justificativa da predominância estadunidense no hemisfério. Polk invocou a possibilidade de que o Texas caísse sob a influência de uma potência estrangeira mais forte, o que significava que a doutrina podia ser usada contra perigos futuros hipotéticos, além dos perigos reais. A Guerra Civil interrompeu temporariamente o padrão expansionista, porque a prioridade de Washington passou a ser impedir o reconhecimento europeu da Confederação. Esse reconhecimento teria criado um sistema de vários Estados na América do Norte e importado a política de equilíbrio de poder que os Estados Unidos haviam tentado excluir. Depois da guerra, os argumentos expansionistas retornaram, incluindo a justificativa da compra do Alasca como forma de reduzir o controle estrangeiro perto do território estadunidense.

Enquanto isso, a base material do poder estadunidense mudou drasticamente. Em 1885, os Estados Unidos haviam superado a Grã-Bretanha em produção manufatureira. Na virada do século, consumiam mais energia do que Alemanha, França, Áustria-Hungria, Rússia, Japão e Itália juntos. A produção industrial, as ferrovias, a produção agrícola e a população cresceram em ritmos extraordinários. Kissinger ressalta que nenhuma nação havia adquirido tamanho poder sem, em algum momento, buscar influência mais ampla. Ainda assim, por algum tempo o Senado bloqueou projetos expansionistas, manteve o exército pequeno e deixou a marinha fraca. Outras potências continuavam tratando Washington como ator secundário, embora o equilíbrio material já tivesse se deslocado.

Essa contenção não poderia durar. No fim da década de 1880, os Estados Unidos começaram a construir uma marinha moderna, enquanto Alfred Thayer Mahan fornecia o argumento intelectual em favor do poder naval. Ironicamente, a supremacia naval britânica havia protegido os Estados Unidos durante boa parte do século XIX, mas os estadunidenses muitas vezes viam a Grã-Bretanha como o principal desafio estratégico. À medida que a confiança estadunidense crescia, Washington usou a Doutrina Monroe para empurrar a Grã-Bretanha para fora do hemisfério. A afirmação de Richard Olney, em 1895, de que os Estados Unidos eram “praticamente soberanos” no continente revelava o quanto a doutrina havia evoluído. Em 1902, a Grã-Bretanha havia abandonado um papel importante na América Central, e os Estados Unidos estavam estabelecidos como potência dominante em sua própria região.

O realismo de grande potência de Roosevelt

Theodore Roosevelt deu a expressão mais clara às novas implicações globais do poder estadunidense. Ele aceitava a crença tradicional de que os Estados Unidos tinham um papel benéfico, mas rejeitava a ideia de que poderiam cumprir esse papel apenas pelo exemplo. Em sua visão, os Estados Unidos eram uma grande potência como as outras, com interesses que iam além do não envolvimento. Quando esses interesses entravam em choque com os de outros Estados, o país tinha tanto o direito quanto o dever de usar a força.

O primeiro palco de Roosevelt foi o Hemisfério Ocidental. Seu corolário de 1904 à Doutrina Monroe reivindicava um “poder de polícia internacional” estadunidense em casos de desordem ou impotência. A prática já havia começado: dívidas haitianas, a separação do Panamá em relação à Colômbia, a Zona do Canal, o protetorado financeiro na República Dominicana e a ocupação de Cuba mostravam Washington transformando crises locais em tutela regional. Para Roosevelt, essas ações não eram desvios do papel da América, mas expressões dele. Os oceanos já não ofereciam isolamento suficiente, e os Estados Unidos tinham de ajudar a policiar um mundo cada vez mais interconectado.

Kissinger trata Roosevelt como quase único entre os presidentes estadunidenses porque ele definia o interesse nacional em termos de equilíbrio de poder. Ele não acreditava que a paz fosse a condição normal da humanidade, que moralidade pública e moralidade privada fossem idênticas, nem que os Estados Unidos pudessem permanecer seguros apoiando-se em sua virtude. Sua visão da vida internacional era mais próxima de Palmerston, Disraeli, Bismarck e outros estadistas europeus do que de Jefferson. Ele desconfiava do direito internacional quando este não era sustentado pela força, opunha-se ao desarmamento que enfraqueceria potências civilizadas enquanto deixaria déspotas armados, e zombava de tratados de paz ou projetos de governo mundial sem capacidade militar. Para ele, a “retidão” sem força podia ser tão perigosa quanto a força sem retidão.

Essa perspectiva também deixava Roosevelt à vontade com esferas de influência. Ele aceitou a dominação japonesa sobre a Coreia porque a Coreia não podia defender seus direitos previstos em tratados e nenhuma outra potência os faria valer. Ele via esses resultados pela distribuição de poder, e não pelas formalidades jurídicas. Na Europa, inicialmente supôs que o equilíbrio de poder era em grande medida autorregulado, mas gradualmente passou a ver a Alemanha como a principal ameaça e começou a identificar os interesses estadunidenses com os da Grã-Bretanha e da França. Durante a Conferência de Algeciras sobre Marrocos, em 1906, subordinou modestos interesses comerciais estadunidenses a um alinhamento geopolítico com britânicos e franceses contra a pressão alemã.

Na Ásia, Roosevelt favorecia o Japão como contrapeso à Rússia, mas não queria que a Rússia fosse destruída como fator de equilíbrio. Durante a Guerra Russo-Japonesa, inclinou-se para o Japão porque a vitória russa teria fortalecido uma potência que ele considerava perigosa. Depois que o Japão obteve sucesso dramático, porém, buscou um acordo que também contivesse a predominância japonesa. A paz de Portsmouth preservou um equilíbrio no Extremo Oriente e lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz, ironicamente por um acordo baseado em princípios que os estadunidenses wilsonianos posteriores tratariam como suspeitos.

Roosevelt aplicou a mesma lógica à Primeira Guerra Mundial. De início, viu a violação alemã da neutralidade belga e luxemburguesa com distanciamento clínico, considerando pequenos Estados como vítimas prováveis quando grandes potências lutavam. Logo deslocou a ênfase da legalidade para o perigo estratégico. Se a Alemanha derrotasse a Grã-Bretanha, destruísse a supremacia naval britânica e dominasse a Europa, poderia desafiar a segurança estadunidense e a influência dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental. Por esse motivo, Roosevelt defendeu o rearmamento e o apoio estadunidense à Entente. Sua preferência pelo poder naval britânico em vez da hegemonia alemã se apoiava em parte na cultura e na experiência histórica. O argumento central era geopolítico: os Estados Unidos não podiam tolerar uma potência hostil controlando os recursos da Europa.

A dificuldade de Roosevelt era política. Ele podia diagnosticar o equilíbrio de poder com mais precisão do que a maioria dos líderes estadunidenses, mas não conseguia persuadir os estadunidenses a entrar na guerra por esses motivos. Os Estados Unidos não haviam desenvolvido nem os hábitos nem o vocabulário da política europeia de poder. Seus cidadãos não pensavam no país como uma potência entre outras, fazendo cálculos em um sistema moralmente neutro. Roosevelt tinha a compreensão de um estadista sobre a mecânica internacional; Wilson tinha a compreensão de um profeta sobre a motivação estadunidense.

O internacionalismo moral de Wilson

Wilson prevaleceu porque traduziu o engajamento internacional para a linguagem do excepcionalismo estadunidense. Ele entrou tarde na política nacional e se tornou presidente em parte porque a divisão republicana entre Taft e Roosevelt abriu o caminho. Uma vez no cargo, entendeu que o isolacionismo só poderia ser superado mostrando que o envolvimento no exterior servia aos ideais dos Estados Unidos, e não a interesses egoístas. Por isso conduziu o país em direção à guerra, primeiro provando sua devoção à neutralidade e depois apresentando a intervenção como sacrifício por um princípio universal.

Em sua primeira mensagem anual ao Congresso, Wilson esboçou os fundamentos do wilsonianismo. A ordem internacional, em sua visão, deveria repousar no direito, na arbitragem e na honra. Roosevelt considerava tais ideias perigosas quando não eram apoiadas pelo poder. Wilson, por contraste, via o rearmamento após o início da guerra europeia como sinal de que os Estados Unidos haviam perdido a compostura. As causas da guerra, argumentava, não tocavam diretamente a América, e a neutralidade dava aos Estados Unidos a chance de prestar um serviço desinteressado como mediador.

Kissinger rejeita a visão de que a neutralidade de Wilson fosse simples isolacionismo. Wilson universalizava os valores estadunidenses. Seus pressupostos vinham da tradição estadunidense mais antiga: os Estados Unidos tinham uma missão além da diplomacia normal, democracias eram mais pacíficas porque pessoas comuns desejavam a paz, a política externa deveria obedecer aos padrões morais da conduta individual e o Estado não poderia reivindicar um código ético separado. Wilson acrescentou a esses pressupostos uma ampla afirmação de altruísmo. A América, insistia, não ameaçava nenhuma nação e não cobiçava nenhuma posse; portanto, podia liderar porque seus propósitos eram desinteressados.

Para Kissinger, essa afirmação era inédita e ambivalente. Outras nações justificavam a liderança ligando seus interesses aos de outros; Wilson a justificava negando motivo egoísta. Esse altruísmo podia inspirar os estadunidenses, mas também podia tornar a ação estadunidense imprevisível para líderes estrangeiros, porque o interesse nacional pode ser calculado, enquanto o altruísmo depende da definição de virtude adotada pelo próprio ator. Wilson intensificou a afirmação ao tratar os Estados Unidos como escolhidos pela providência: um continente havia sido preservado para um povo pacífico dedicado à liberdade. Isso levou a política externa estadunidense muito além do objetivo de Roosevelt de ocupar um lugar responsável no equilíbrio de poder. Roosevelt queria que os Estados Unidos se tornassem uma grande potência entre grandes potências; Wilson os tratava como portadores de princípios aplicáveis a toda a humanidade.

Em 1915, Wilson havia avançado uma doutrina de implicações globais. A segurança dos Estados Unidos, sugeria, era inseparável da segurança dos povos que, em toda parte, buscavam liberdade e autogoverno. Kissinger vê aí uma antecipação do pensamento posterior de contenção: a América não poderia limitar sua preocupação aos acontecimentos que a afetavam diretamente. Wilson chegou a reinterpretar o aviso de Washington contra envolvimentos estrangeiros. Segundo Wilson, Washington havia advertido contra o envolvimento nos propósitos de outros governos, não contra a preocupação com a humanidade. Como nada que afetasse a humanidade poderia ser estrangeiro à América, uma doutrina originalmente voltada a limitar o envolvimento tornou-se, nas mãos de Wilson, uma carta de engajamento.

As causas imediatas da entrada estadunidense na guerra foram o afundamento do Lusitania pela Alemanha e a retomada da guerra submarina irrestrita. Wilson, contudo, não baseou a declaração de guerra nessas queixas. A escolha foi mais ampla que as queixas marítimas: ele evitou argumentos centrados na Bélgica ou no equilíbrio de poder. Apresentou a guerra como uma luta moral pela democracia, pelas pequenas nações, pelo autogoverno popular e por uma ordem universal de direito. Como os objetivos de guerra eram morais, o compromisso tornou-se difícil. Roosevelt provavelmente teria formulado a intervenção em termos estratégicos e deixado espaço para um acordo baseado em interesses; Wilson definiu o conflito de modo que a paz exigia a derrota de um mal político.

Essa lógica empurrou Wilson para além de seu apelo anterior por uma “paz sem vitória”. Depois que a América entrou na guerra, ele separou o povo alemão de seus governantes e fez do governo autocrático em si o problema. Estadistas europeus se preocupavam com o Kaiser Guilherme II, mas não haviam feito da derrubada da ordem doméstica alemã a chave para a paz europeia. A linguagem de Wilson transformou a guerra em luta para tornar o mundo seguro para a democracia, e a opinião pública estadunidense absorveu rapidamente essas categorias morais. Os Quatorze Pontos chegaram mais perto de um programa detalhado, mas Kissinger situa a realização histórica mais profunda em outro ponto: Wilson reconheceu que os estadunidenses sustentariam um papel internacional importante apenas quando ele fosse justificado por fé moral.

A segurança coletiva e o triunfo do wilsonianismo

O projeto de pós-guerra de Wilson rejeitou o velho equilíbrio de poder como sistema de “rivalidades organizadas”. Em seu lugar, propôs uma “comunidade de poder”, mais tarde conhecida como segurança coletiva. A ideia supunha que nações amantes da paz compartilhavam um interesse igual em resistir à agressão. Elas se uniriam contra qualquer Estado que perturbasse a paz. A Liga das Nações foi a expressão institucional dessa ideia. Ela substituiria alianças e cálculos secretos por julgamento moral compartilhado e imposição coletiva.

Kissinger ressalta o quanto essa proposta era radical para a Europa. Durante três séculos, os Estados europeus haviam baseado a ordem no equilíbrio de interesses nacionais e tratado a segurança como a primeira tarefa da política externa. Wilson pedia que baseassem a política na convicção moral e confiassem que a segurança viria em seguida. Ele também exigia a redução ou destruição do poder arbitrário em qualquer lugar onde pudesse ameaçar a paz mundial. A Liga atuaria como guardiã da paz, com crises expostas à pressão esclarecedora da opinião mundial. Para nações exaustas pela guerra e treinadas por séculos de insegurança, isso era filosoficamente estranho e praticamente exigente.

Mesmo assim, o vocabulário de Wilson tornou-se a linguagem comum da política externa estadunidense. Debates posteriores muitas vezes trataram de saber se os Estados Unidos haviam vivido à altura dos princípios de Wilson, e não se esses princípios ofereciam orientação suficiente. Kissinger critica duramente a premissa da segurança coletiva. Ela supõe que todos os Estados identificarão ameaças da mesma forma e aceitarão riscos comparáveis para resistir a elas. Na prática, isso ocorre apenas quando um perigo é esmagador e amplamente reconhecido. Kissinger aponta as guerras mundiais e, regionalmente, a Guerra Fria como exemplos. Nos casos difíceis, os Estados costumam discordar sobre a ameaça, o remédio ou o sacrifício exigido. Do ataque da Itália à Abissínia à crise da Bósnia, a segurança coletiva mostrou-se muito mais fácil de proclamar do que de aplicar.

O wilsonianismo também aprofundou uma divisão no pensamento estadunidense. Os Estados Unidos defendiam interesses concretos de segurança, ou resistiam apenas a métodos ilegais de mudança? Rejeitavam completamente a geopolítica, ou a reinterpretavam por categorias morais? Kissinger observa que, mesmo na Guerra do Golfo, o presidente George H. W. Bush enfatizou a resistência à agressão mais do que a defesa de suprimentos vitais de petróleo. Durante a Guerra Fria, debates estadunidenses às vezes giraram em torno de saber se uma América falha tinha autoridade moral para organizar a resistência a Moscou. Esses argumentos fluíam do hábito wilsoniano de filtrar a segurança pela legalidade e pela moralidade.

Roosevelt teria rejeitado toda essa estrutura de pressupostos. Ele acreditava que a paz era frágil, e não natural. Ela só poderia ser mantida por vigilância, armas e alianças entre potências de ideias semelhantes. Temia que uma liga que prometesse demais deixasse os pacíficos expostos aos predadores, como ovelhas que dispensassem seus cães de guarda antes de enfrentar lobos. Para ele, uma organização mundial poderia fazer um bem limitado se concebida com modéstia, mas grandes pretensões a fariam se parecer com a Santa Aliança em outra forma moralizada. Sua visão morreu com ele em 1919. Nenhuma grande escola estadunidense de política externa o tomou depois como fundador explícito. Alguns presidentes posteriores praticaram elementos de seu realismo; Nixon, na narrativa de Kissinger, incorporou muitos preceitos rooseveltianos enquanto ainda reivindicava o internacionalismo de Wilson.

A vitória intelectual de Wilson perdurou apesar do fracasso político da Liga das Nações nos Estados Unidos. O país ainda não estava pronto para o papel global permanente imaginado por Wilson, mas seus princípios moldaram as explicações posteriores desse papel. Depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos ajudaram a construir as Nações Unidas com base em princípios semelhantes aos da Liga, esperando inicialmente que a cooperação dos vencedores pudesse sustentar a paz. Quando essa esperança desmoronou, a América enquadrou a Guerra Fria menos como rivalidade entre superpotências do que como luta moral pela democracia. Depois da queda do comunismo, os dois grandes partidos retornaram à crença wilsoniana de que a paz dependia da segurança coletiva e da difusão de instituições democráticas.

Kissinger encerra apresentando o wilsonianismo como o drama central do papel mundial da América. Os Estados Unidos muitas vezes estiveram domesticamente satisfeitos com o status quo, mas sua ideologia de política externa foi revolucionária porque trata a difusão de seus princípios como condição da paz. Ela tende a transformar disputas internacionais em lutas entre bem e mal, o que torna compromissos e resultados inconclusivos emocionalmente difíceis. Confia no direito e na mudança pacífica, embora a história muitas vezes tenha produzido grandes mudanças por meio da violência. A América, portanto, teve de perseguir ideais universais em cooperação com Estados que tinham margens de sobrevivência mais estreitas, objetivos mais limitados e menos confiança na providência. Mesmo assim, perseverou. O mundo do pós-guerra tornou-se em grande medida uma criação estadunidense: não o equilíbrio de poderes de Roosevelt, mas a visão de Wilson da América como farol e esperança.


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