Historia Mundum

Resumo: Diplomacia, de Kissinger - Capítulo 22 - Hungria

Detalhe da capa do livro Diplomacy, de Henry Kissinger. A imagem mostra grandes letras serifadas marrons formando Henry Kissinger na metade superior, uma linha horizontal preta no centro e o título Diplomacy em letras serifadas vermelhas abaixo, sobre fundo branco simples, sem pessoas, sala, paisagem ou cena histórica.

Capa de Diplomacy, de Henry Kissinger, usada como imagem comum desta série de resumos.

Em 1994, Henry Kissinger publicou o livro Diplomacia. Ele foi um acadêmico e diplomata renomado, tendo servido como Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado dos Estados Unidos. Seu livro oferece um extenso panorama da história das questões internacionais e da arte da diplomacia, com foco particular no século XX e no mundo ocidental. Kissinger, conhecido por seu alinhamento com a escola realista das Relações Internacionais, trata dos conceitos de equilíbrio de poder, razão de Estado e Realpolitik em diferentes épocas.

Sua obra foi amplamente elogiada pelo seu alcance e pelo seu detalhismo. Todavia, ela também enfrentou críticas por seu foco em indivíduos em detrimento de forças estruturais, e por apresentar uma visão reducionista da história. Além disso, alguns críticos também alegaram que o livro se concentra excessivamente no papel individual de Kissinger nos eventos, potencialmente superestimando sua influência sobre eles. De qualquer forma, as ideias do livro merecem ser consideradas.

Este artigo apresenta um resumo das ideias de Kissinger no vigésimo segundo capítulo de seu livro, cujo título é "Rebelião no império: Hungria".

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O império soviético e o comunismo nacional

Kissinger começa situando a Hungria em um padrão imperial russo mais longo. Desde a época de Pedro, o Grande, a Rússia tentava impedir que povos vizinhos conduzissem políticas externas independentes. Cada ato de dominação, porém, criava um ônus: tropas precisavam ser estacionadas, ressentimentos locais precisavam ser administrados, e a Rússia pagava pelo controle sem necessariamente ganhar segurança.

O comunismo repetiu esse padrão com métodos mais duros. Stalin recuperou territórios perdidos ao fim da Primeira Guerra Mundial e acrescentou a órbita satélite do Leste Europeu, ocupada pelo Exército Vermelho e governada por regimes de tipo soviético. Nesses países, o controle estrangeiro se somou ao planejamento central, à polícia política, à censura e à repressão das tradições nacionais. Os resultados econômicos intensificaram o ressentimento. A Tchecoslováquia, antes comparável à Suíça em padrão de vida, foi arrastada para a uniformidade cinzenta do bloco; os recursos da Polônia produziram pouca prosperidade; os alemães orientais podiam ver que a recuperação da Alemanha Ocidental era bloqueada, do seu lado, apenas pelo comunismo.

A distinção importava porque o comunismo podia alegar uma origem nativa dentro da União Soviética, mas aparecia no Leste Europeu como ordem imposta. Mesmo com o controle da polícia, das escolas e da mídia, os partidos comunistas satélites continuavam sendo minorias cercadas. Na formulação de Kissinger, o Leste Europeu deveria aumentar a segurança soviética, mas consumia cada vez mais recursos, atenção e legitimidade de Moscou.

A resposta de Stalin foi o controle total. A ruptura de Tito com Moscou em 1948, portanto, representou um desafio existencial, sobretudo porque a Iugoslávia era o único Estado comunista do Leste Europeu cujo regime havia chegado ao poder em grande medida por sua própria luta. Stalin expulsou a Iugoslávia do Cominform, mas Tito sobreviveu com apoio ocidental. Dentro do bloco, Stalin respondeu ao perigo da independência com julgamentos-espetáculo contra comunistas como Rudolf Slansky, Laszlo Rajk, Traicho Kostov e Wladyslaw Gomulka. Para Kissinger, esses expurgos expuseram a falência moral do sistema porque Moscou destruía até instrumentos leais para impedir o comunismo nacional.

Com a morte de Stalin, seus sucessores não podiam restaurar todo o seu terror nem permitir independência genuína. Temiam que a repressão ameaçasse o relaxamento com o Ocidente, mas também temiam que a reforma desmanchasse o bloco. Em 1955, Khrushchev e Bulganin tentaram reconciliar-se com Tito e tolerar um nacionalismo limitado no Leste Europeu, desde que o domínio comunista e o controle estratégico soviético permanecessem intactos. A denúncia de Stalin por Khrushchev em 1956 tornou esse equilíbrio mais precário, porque líderes satélites agora precisavam de credenciais nacionais para ganhar aceitação pública.

Retórica de libertação sem política operacional

A política estadunidense permaneceu fundamentalmente passiva. A contenção havia evitado um desafio direto ao controle soviético no Leste Europeu e deixado a libertação para a erosão do tempo. Durante a campanha presidencial de 1952, John Foster Dulles atacou essa contenção, descreveu os povos do Leste Europeu como nações cativas e disse que os Estados Unidos deveriam deixar claro que esperavam a libertação.

Kissinger enfatiza, porém, que a política de Dulles era menos radical do que sua linguagem sugeria. Dulles não convocava levantes que o poder soviético esmagaria. Imaginava uma separação pacífica de Moscou no modelo de Tito, auxiliada por propaganda e outros instrumentos não militares. Em substância, isso pouco diferia do apoio estadunidense anterior a Tito, exceto pelo fato de Dulles dar a uma política de equilíbrio de poder um vocabulário universalista.

O perigo era que a retórica ultrapassava a política. Dulles não pretendia incentivar revoltas suicidas, mas essa distância entre intenção e recepção ficou sem correção: ele fez pouco para desfazer interpretações literais da libertação. A Radio Free Europe e a Radio Liberty, instituições financiadas pelo governo com vozes formalmente privadas, transmitiam apelos militantes que mantinham a resistência viva. Para ouvintes do Leste Europeu, a distinção entre política oficial estadunidense e exortação financiada pelos Estados Unidos era fina demais para importar.

A desobediência limitada da Polônia

A Polônia testou Moscou primeiro em 1956. Quando os tumultos em Poznan foram reprimidos violentamente em junho, líderes comunistas poloneses sobreviventes tentaram vincular-se ao sentimento nacional. Em outubro, Gomulka, expurgado em 1951, voltou à liderança. O marechal soviético Konstantin Rokossovsky, imposto como ministro da Defesa e membro do Politburo, foi afastado, e o partido anunciou uma via nacional ao socialismo.

O Kremlin considerou brevemente a intervenção. Tanques soviéticos avançaram em direção a cidades polonesas, e Khrushchev chegou a Varsóvia em 19 de outubro com colegas de alto escalão. Os líderes poloneses recusaram tratar a visita como reunião partidária e receberam a delegação soviética como convidados de Estado no Palácio Belvedere. O protocolo sinalizava dignidade governamental, não subordinação partidária.

Khrushchev recuou. Em 20 de outubro, tropas soviéticas receberam ordem de voltar às suas bases. Dois dias depois, ele aceitou Gomulka como líder do partido em troca de garantias de que a Polônia preservaria o socialismo e permaneceria no Pacto de Varsóvia. Formalmente, o sistema soviético de defesa sobreviveu, mas a confiabilidade da Polônia havia sido enfraquecida. Kissinger atribui a contenção soviética em parte aos riscos de confrontar mais de trinta milhões de poloneses com memórias profundas da opressão russa, e em parte ao fato de a Hungria estar se tornando um teste mais perigoso.

A revolução húngara ultrapassa a reforma

A Hungria havia suportado um regime stalinista especialmente duro sob Mátyás Rákosi. Após o levante da Alemanha Oriental em 1953, Moscou o substituiu por Imre Nagy, um comunista reformista. Nagy acabou afastado, Rákosi voltou, e a ortodoxia estrita foi retomada. Mesmo assim, Nagy sobreviveu e publicou uma contestação à intervenção soviética dentro de Estados comunistas. Após o discurso anti-Stalin de Khrushchev, Rákosi foi substituído novamente, desta vez por Erno Gero, ligado demais à velha ordem para acalmar o nacionalismo húngaro.

Em 23 de outubro, no dia seguinte ao retorno formal de Gomulka na Polônia, Budapeste explodiu. Estudantes exigiam liberdade de expressão, julgamento de Rákosi e seus associados, retirada das tropas soviéticas e restauração de Nagy. Nagy inicialmente esperava reparar o sistema comunista, não destruí-lo, mas o momento da reforma controlada havia passado. Kissinger invoca a advertência de Tocqueville de que a opressão muitas vezes se torna intolerável quando a reforma sugere pela primeira vez uma saída. Nagy foi gradualmente transformado pelo levante em símbolo de aspiração democrática, papel que depois lhe custou a vida.

Em 24 de outubro, as manifestações se tornaram revolução. Tanques soviéticos entraram em Budapeste, alguns foram incendiados, e prédios governamentais foram tomados. Nagy tornou-se primeiro-ministro, enquanto os representantes do Politburo soviético Anastas Mikoyan e Mikhail Suslov chegaram para avaliar a crise. Em 28 de outubro, Moscou parecia disposta a aceitar uma Hungria titoísta, e tanques soviéticos começaram a retirar-se de Budapeste. Contudo, as demandas húngaras haviam ido além do modelo polonês: política multipartidária, retirada das tropas soviéticas de toda a Hungria e saída do Pacto de Varsóvia.

Sinais estadunidenses e determinação soviética

Washington não havia se preparado para uma revolta desse tipo. Apelou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas em 27 de outubro, mas o processo avançou tão lentamente que a votação ocorreu apenas após a repressão soviética. A Radio Free Europe, enquanto isso, instava os húngaros a rejeitar compromissos e tratava Nagy com suspeita mesmo depois de ele caminhar para um governo de coalizão. Embora a emissora não recebesse instruções administrativas diretas, os húngaros dificilmente podiam separar sua voz da retórica estadunidense de libertação.

Declarações oficiais estadunidenses também estavam mal calibradas. Em 27 de outubro, Dulles disse que qualquer país do Leste Europeu que rompesse com Moscou poderia receber ajuda estadunidense sem adotar um sistema social específico e sem tornar-se aliado militar. Pensada como tranquilização, a frase soou em Moscou como convite para que satélites deixassem o Pacto de Varsóvia sob proteção econômica estadunidense. A declaração de Eisenhower de 31 de outubro repetiu que os Estados Unidos não usariam força e não buscavam novos aliados militares. Essa renúncia à força, ao contrário das garantias de intenção benigna, era fácil para o Kremlin compreender.

Os acontecimentos em Budapeste avançavam mais rápido que a diplomacia. Em 30 de outubro, revolucionários tomaram a sede do Partido Comunista e massacraram seus ocupantes. Nagy anunciou um governo de coalizão baseado nos partidos democráticos do imediato pós-guerra. Béla Kovacs entrou no gabinete, o cardeal Mindszenty foi libertado da prisão, e novos partidos abriram escritórios e jornais. Nagy também negociava com Mikoyan e Suslov a retirada soviética.

Ao mesmo tempo, Moscou divulgou uma declaração sugerindo que tropas soviéticas só poderiam ficar estacionadas em um país do Pacto de Varsóvia com o consentimento desse país, mas incluiu advertências: a União Soviética defenderia a ordem socialista da Hungria contra a reação interna e externa. Washington enfatizou a linguagem conciliadora e negligenciou as ressalvas. Nagy, preso entre as demandas húngaras e os limites soviéticos, deu o passo decisivo em 1º de novembro: declarou a Hungria neutra, retirou-se do Pacto de Varsóvia e pediu às Nações Unidas que reconhecessem a neutralidade húngara. Nenhuma resposta eficaz veio.

Repressão, Nações Unidas e o custo não imposto

Em 4 de novembro, forças soviéticas atacaram. János Kádár voltou com o Exército Vermelho para formar um novo governo comunista. Pal Maleter, comandante do Exército húngaro, foi preso enquanto negociava a retirada das tropas soviéticas. Nagy refugiou-se na embaixada iugoslava, aceitou uma promessa de salvo-conduto e foi preso depois de deixá-la. O cardeal Mindszenty refugiou-se na legação estadunidense, e Nagy e Maleter foram executados mais tarde.

Só após o ataque soviético as Nações Unidas se voltaram seriamente para a Hungria, tendo passado os dias decisivos denunciando a Grã-Bretanha e a França por Suez. Uma resolução do Conselho de Segurança exigindo a retirada soviética foi vetada. A Assembleia Geral aprovou uma resolução afirmando a independência húngara e pedindo observadores, mas ela não teve efeito. No mesmo dia, as Nações Unidas criaram uma força de emergência para o Oriente Médio, e essa medida foi implementada. O contraste aguça o julgamento de Kissinger de que a Hungria expôs a seletividade da moralidade internacional.

Kissinger não argumenta que as democracias ocidentais deveriam ter ido à guerra pela Hungria. Trata essa opção como irrealista e perigosa em condições nucleares. No entanto, critica duramente Washington por não explorar medidas sérias abaixo do limiar da guerra. Os Estados Unidos não advertiram Moscou de que a intervenção congelaria as relações Leste-Oeste ou imporia custos políticos e econômicos. Não disseram claramente ao governo húngaro onde terminava o apoio estadunidense, e não aconselharam Nagy sobre como consolidar ganhos antes de tomar medidas irreversíveis. Os Estados Unidos e seus aliados se comportaram como espectadores, embora a retórica estadunidense tivesse ajudado a criar expectativas impossíveis de cumprir.

A União Soviética pagou pouco preço imediato. Pouco mais de dois anos mais tarde, Harold Macmillan visitou Moscou, e em menos de três anos Eisenhower e Khrushchev invocaram Camp David. Para Kissinger, o resgate militar era impossível. A oportunidade diplomática perdida estava em fazer a repressão soviética parecer muito menos gratuita.

Suez, não alinhamento e Realpolitik

A crise simultânea de Suez intensificou a contradição. Estados árabes e governos não alinhados importantes, incluindo a Índia e a Iugoslávia, condenaram a Grã-Bretanha e a França por causa do Egito. Muitos, porém, se recusaram a condenar a União Soviética pela Hungria. Kissinger argumenta que os Estados Unidos deveriam ter vinculado sua pressão sobre a Grã-Bretanha e a França a atitudes recíprocas diante da repressão soviética. Em vez disso, a União Soviética perdeu pouca influência entre os não alinhados, enquanto os Estados Unidos não receberam crédito comparável por se oporem a seus próprios aliados em Suez.

O episódio também revela a visão de Kissinger sobre o não alinhamento. A neutralidade anterior geralmente significava distância passiva dos blocos de poder. O não alinhamento da Guerra Fria tornou-se ativo, organizado e moralista. Seus membros denunciavam tensões internacionais enquanto aprendiam a se beneficiar delas, jogando as superpotências uma contra a outra. Como muitos temiam mais a União Soviética do que os Estados Unidos, muitas vezes eram mais duros com potências ocidentais do que com Moscou.

A Índia é o principal exemplo de Kissinger. Em 16 de novembro, Jawaharlal Nehru defendeu a recusa indiana de apoiar a resolução das Nações Unidas que condenava ações soviéticas alegando que os fatos eram obscuros, a resolução era mal redigida e a supervisão de eleições pela ONU seria intrusão na soberania húngara. Kissinger descarta isso como Realpolitik. A Índia queria apoio soviético e acesso a armas enquanto enfrentava a China e o Paquistão. Seus líderes falavam a linguagem moral de Wilson e Gladstone, mas agiam na tradição estratégica de Disraeli e Theodore Roosevelt.

As explicações posteriores de Dulles aprofundaram o problema. Em dezembro de 1956, ele disse que os Estados Unidos não queriam cercar a União Soviética com Estados hostis e esperavam uma evolução pacífica rumo à independência. Em março de 1957, enfatizou que os Estados Unidos não tinham obrigação legal de fornecer ajuda militar à Hungria. Para Kissinger, a questão de um compromisso formal importava menos do que saber se a conduta estadunidense correspondia às implicações de sua missão pública.

O sentido longo de 1956

As crises pareadas de Suez e Hungria definiram as coordenadas da fase seguinte da Guerra Fria. A União Soviética preservou sua posição no Leste Europeu, enquanto as democracias ocidentais perderam terreno no Oriente Médio. Khrushchev pôde esmagar Budapeste, ameaçar a Europa Ocidental com foguetes e propor ação conjunta com os Estados Unidos contra a Grã-Bretanha e a França no Oriente Médio. A Hungria foi deixada à evolução histórica, e os aliados dos Estados Unidos ficaram com percepção mais aguda da própria impotência.

Kissinger encerra ressaltando, porém, que o sucesso soviético escondia fraqueza. As revoluções que ocorriam em países desenvolvidos aconteciam dentro da esfera comunista, não da capitalista. O Leste Europeu teria servido melhor à segurança soviética como um anel de governos neutros à moda finlandesa do que como império que exigia coerção permanente. A dominação soviética drenava recursos, assustava o Ocidente e nunca converteu o controle do governo e da mídia em aceitação popular.

Kádár acabou se aproximando parcialmente dos objetivos domésticos de Nagy, embora mantivesse a Hungria dentro do Pacto de Varsóvia. Em uma década, a Hungria tornou-se internamente mais livre que a Polônia e um pouco mais independente em política externa. Uma geração depois, a liberalização soviética perderia novamente o controle, desta vez de forma fatal. Em 1956, contudo, Moscou interpretou erroneamente a repressão da Hungria e a humilhação do Ocidente em Suez como prova de que o equilíbrio de forças havia mudado a seu favor. Essa confiança ajudou a levar ao próximo grave desafio da Guerra Fria: os ultimatos soviéticos sobre Berlim.


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