
Capa de Diplomacy, de Henry Kissinger, usada como imagem comum para esta série de resumos.
Em 1994, Henry Kissinger publicou o livro Diplomacia. Ele foi um acadêmico e diplomata renomado, tendo servido como Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado dos Estados Unidos. Seu livro oferece um extenso panorama da história das questões internacionais e da arte da diplomacia, com foco particular no século XX e no mundo ocidental. Kissinger, conhecido por seu alinhamento com a escola realista das Relações Internacionais, trata dos conceitos de equilíbrio de poder, razão de Estado e Realpolitik em diferentes épocas.
Sua obra foi amplamente elogiada pelo seu alcance e pelo seu detalhismo. Todavia, ela também enfrentou críticas por seu foco em indivíduos em detrimento de forças estruturais, e por apresentar uma visão reducionista da história. Além disso, alguns críticos também alegaram que o livro se concentra excessivamente no papel individual de Kissinger nos eventos, potencialmente superestimando sua influência sobre eles. De qualquer forma, as ideias do livro merecem ser consideradas.
Este artigo apresenta um resumo das ideias de Kissinger no vigésimo terceiro capítulo de seu livro, cujo título é "O ultimato de Kruschev: A crise de Berlim, 1958-1963".
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A vulnerabilidade de Berlim depois da guerra
O problema começou com o próprio acordo do pós-guerra. Em Potsdam, Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e União Soviética concordaram que Berlim seria governada pelas quatro potências ocupantes. A administração conjunta da Alemanha logo entrou em colapso: em 1949, as zonas ocidentais haviam se tornado a República Federal da Alemanha, enquanto a zona soviética havia se tornado a República Democrática Alemã. Berlim conservou seu estatuto aliado especial, embora estivesse situada bem dentro do território da Alemanha Oriental.
Esse arranjo deu a Berlim Ocidental uma importância política e simbólica incomum. Os setores ocidentais eram um enclave próspero dentro do bloco comunista e uma rota de fuga para alemães orientais que queriam emigrar. Para os líderes da Alemanha Oriental e para Moscou, a cidade se tornou, ao mesmo tempo, um constrangimento ideológico e um perigo demográfico.
A base jurídica do acesso ocidental era mais fraca do que a importância simbólica da cidade sugeria. As potências ocupantes haviam designado estradas, ligações ferroviárias e corredores aéreos para Berlim. Os mecanismos precisos de passagem continuavam indefinidos. Stalin explorou essa lacuna em 1948 ao impor o bloqueio de Berlim. A ponte aérea ocidental restabeleceu o acesso sem resolver a ambiguidade jurídica. À medida que Berlim se tornava um centro industrial maior, outra ponte aérea já não teria sido suficiente para sustentá-la em uma emergência.
No fim da década de 1950, a vulnerabilidade de Berlim era aguda. A União Soviética continuava juridicamente responsável pelo acesso, mas as autoridades da Alemanha Oriental controlavam as rotas na prática. Pequenas interrupções no tráfego rodoviário, ferroviário ou aéreo podiam ser apresentadas como detalhes administrativos, mesmo quando ameaçavam a liberdade da cidade. Kruschev viu nessa posição exposta o ponto doloroso mais vulnerável da presença estadunidense na Europa.
O ultimato de Kruschev e a crise da Alemanha Oriental
Kruschev iniciou sua ofensiva sobre Berlim quando muitos responsáveis ocidentais se convenciam de que o líder soviético queria a distensão. Dulles e o embaixador Llewellyn Thompson interpretaram os acontecimentos posteriores ao discurso de Kruschev no XX Congresso do Partido, em 1956, como sinais de uma abordagem soviética menos violenta. Kissinger considera esse otimismo mal colocado. O comportamento de Kruschev após o lançamento do Sputnik, em outubro de 1957, mostrou que ele acreditava que o prestígio científico e militar soviético podia alterar a correlação de forças. Eisenhower entendia que um protótipo de satélite não equivalia a uma vantagem militar operacional, mas Kruschev tratava o Sputnik como prova de que o socialismo superava o capitalismo.
Kruschev tentou então converter essa suposta mudança em ganhos diplomáticos. Em 10 de novembro de 1958, exigiu o fim do estatuto quadripartite de Berlim e anunciou que a União Soviética pretendia transferir à Alemanha Oriental o controle do acesso ocidental. Em 27 de novembro, notas soviéticas formais declararam nulo o acordo quadripartite sobre Berlim, pediram que Berlim Ocidental se tornasse uma cidade livre desmilitarizada e ameaçaram concluir um tratado de paz separado com a Alemanha Oriental caso nenhum acordo fosse alcançado em seis meses. Em janeiro de 1959, Kruschev apresentou um projeto de tratado de paz que definia novos arranjos para Berlim e para a Alemanha Oriental. O desafio era formulado como uma mudança jurídica, mas seu efeito teria sido forçar o Ocidente a reconhecer a Alemanha Oriental ou a arriscar uma guerra por procedimentos de acesso.
Kissinger ressalta que a ofensiva de Kruschev escondia fraqueza atrás da bravata. A Alemanha Oriental perdia centenas de milhares de pessoas por Berlim, incluindo muitos profissionais qualificados, e esse fluxo ameaçava a sobrevivência do regime. Kruschev tinha, portanto, um motivo defensivo: precisava fechar o buraco na Cortina de Ferro e dar ao regime da Alemanha Oriental uma base mais firme. Ao mesmo tempo, esperava que a pressão sobre Berlim enfraquecesse os vínculos da Alemanha Ocidental com a aliança atlântica.
Essa pressão atingia diretamente a política de Konrad Adenauer. O chanceler da Alemanha Ocidental havia rejeitado propostas de reunificação que exigiam neutralidade ou afrouxamento dos compromissos ocidentais de Bonn. Desde o início da década de 1950, ele baseava o futuro da Alemanha Ocidental na integração atlântica e na convicção de que os aliados manteriam a reunificação alemã ligada à diplomacia Leste-Oeste. Qualquer elevação do estatuto da Alemanha Oriental ameaçava essa estratégia. Se os aliados ocidentais tratassem a Alemanha Oriental como um Estado, Moscou poderia argumentar que a reunificação deveria ficar a cargo de negociações entre os dois governos alemães. Para Adenauer, isso podia transformar a política interna da Alemanha Ocidental, fortalecer pressões neutralistas e colocar em risco a integração europeia.
Adenauer viu, portanto, o ultimato de Kruschev como uma tentativa de isolar a República Federal. A oferta soviética dava ao Ocidente, na melhor hipótese, o acesso a Berlim que ele já possuía, ao mesmo tempo em que concedia à Alemanha Oriental um papel maior no futuro da Alemanha. Uma reunificação comprada ao preço de separar a Alemanha Ocidental do Ocidente criaria um Estado vulnerável e sem ancoragem no centro da Europa. Adenauer preferia que qualquer negociação inevitável reafirmasse o apoio ocidental e mantivesse a reunificação baseada em eleições livres.
As divergências aliadas sobre risco e negociação
A visão de Adenauer não era compartilhada por todos os seus aliados. A Grã-Bretanha, sob Harold Macmillan, não queria arriscar uma guerra nuclear por arranjos de acesso à antiga capital de um inimigo derrotado. Os líderes britânicos valorizavam a aliança atlântica. A reunificação alemã não definia a segurança britânica. Londres era mais sensível à capacidade de Eisenhower de sustentar o apoio da opinião pública estadunidense do que às preocupações internas de Adenauer, e Macmillan se tornou defensor de negociações que ao menos comprassem tempo.
O dilema estadunidense era mais profundo porque a decisão final de arriscar uma guerra nuclear cabia a Washington. A crise de Berlim mostrou que as armas nucleares podiam limitar a diplomacia estadunidense tanto quanto a fortaleciam. A doutrina da retaliação maciça prometera dissuadir a agressão soviética por meio da ameaça de punição no momento e no lugar escolhidos pelos Estados Unidos. Em 1958, porém, o desenvolvimento termonuclear e balístico soviético fazia da guerra nuclear geral um remédio catastrófico para uma crise local. Mesmo que os líderes ocidentais exagerassem as capacidades soviéticas em mísseis, o custo humano de um conflito nuclear superava as apostas diplomáticas ordinárias.
Daí surgiu um conflito entre credibilidade e tranquilização. Uma ameaça de guerra nuclear seria mais crível se os Estados Unidos parecessem prontos para reagir depressa, talvez de modo imprudente. As opiniões públicas democráticas, no entanto, esperavam que seus líderes permanecessem calmos, racionais e flexíveis diante de um risco catastrófico. Eisenhower escolheu tranquilizar a opinião pública em vez de assustar os soviéticos. No início de 1959, afirmou que os Estados Unidos não travariam uma guerra terrestre na Europa, que era improvável que abrissem caminho até Berlim pelas armas e que armas nucleares não podiam libertar uma cidade. Essas declarações sugeriam que a disposição de Washington de ir à guerra por Berlim era limitada.
Charles de Gaulle tirou a lição oposta. De volta ao poder na França, rejeitou a busca anglo-estadunidense por uma demanda soviética que pudesse ser satisfeita a baixo custo. Para ele, a pressão de Kruschev refletia a fraqueza e as tensões internas do sistema soviético, não uma queixa legítima sobre Berlim. Concessões encorajariam aventuras soviéticas e poderiam empurrar a Alemanha a buscar seu futuro no Leste. De Gaulle podia se permitir maior firmeza retórica porque não carregava a mesma responsabilidade nuclear que o presidente estadunidense. Sua posição, ainda assim, tinha uma lógica estratégica: queria convencer Adenauer de que a França era o parceiro europeu indispensável da Alemanha Ocidental e atrair Bonn para uma Europa menos dominada por Washington.
Essa política invertia hábitos franceses antigos. Desde Richelieu, a França havia procurado muitas vezes manter a Alemanha dividida ou fraca. Depois da Segunda Guerra Mundial, essa abordagem se desfez: uma aliança com Moscou agora arriscava a dominação soviética da Europa, enquanto Grã-Bretanha e França não tinham poder suficiente para conter sozinhas a Alemanha. De Gaulle aceitou, portanto, a força alemã em troca do reconhecimento, pela Alemanha Ocidental, da liderança política francesa na Europa. Berlim permitiu que ele aparecesse como defensor das preocupações nacionais alemãs, ao mesmo tempo em que desencorajava qualquer arranjo germano-soviético independente.
Dulles, Camp David e as oportunidades perdidas de Kruschev
Preso entre a firmeza de de Gaulle e o desejo de negociar de Macmillan, Dulles tentou preservar a substância enquanto ajustava a forma. Em novembro de 1958, examinou se funcionários da Alemanha Oriental poderiam desempenhar funções menores de acesso como agentes soviéticos, permitindo que o Ocidente evitasse o reconhecimento direto da Alemanha Oriental. Em janeiro de 1959, foi mais longe ao sugerir que eleições livres eram o método natural de reunificação e talvez um método entre vários. Suas alusões a uma confederação entre os dois Estados alemães alarmaram Berlim e Bonn. Willy Brandt advertiu que a teoria do agente encorajaria a intransigência soviética, e Adenauer afirmou que Dulles enfraquecia a política da Alemanha Ocidental de reunificação pelo Ocidente e por eleições livres.
A distância cresceu quando autoridades da Alemanha Ocidental foram a Washington em busca de apoio à posição ocidental estabelecida. Os responsáveis estadunidenses pediram, em vez disso, que Bonn apresentasse “novas ideias”, expressão que na prática significava fórmulas que elevavam o estatuto da Alemanha Oriental ou atendiam a alguma demanda soviética. Kissinger nota a ironia: Estados Unidos e Grã-Bretanha empurravam a Alemanha Ocidental para medidas capazes de inflamar o nacionalismo alemão, enquanto Adenauer tentava manter seu país ancorado no Ocidente.
Macmillan rompeu as fileiras aliadas ao viajar a Moscou em fevereiro de 1959 para conversas exploratórias. Kruschev interpretou a visita como prova de que a correlação de forças se movia em seu favor. Reafirmou suas exigências e descartou a crença britânica de que uma diplomacia de cúpula amistosa pudesse resolver conflitos fundamentais. As fronteiras, sustentava, refletiam o alinhamento de forças produzido por vitória, capitulação ou outras pressões. Kissinger vê nisso uma profissão aberta de Realpolitik.
Dulles logo retirou parte de suas insinuações anteriores, mas a busca estadunidense por acomodação permaneceu. Eisenhower considerava teóricas muitas das preocupações de Adenauer e, no dia do ultimato formal de Kruschev, indicou que poderia aceitar uma cidade livre sem tropas estadunidenses se Berlim e suas rotas de acesso fossem colocadas sob autoridade das Nações Unidas. Dulles alertou contra garantias de papel e insistiu que a liberdade de Berlim exigia tropas estadunidenses. O momento de decisão ainda não veio. Dulles estava em estado terminal e morreu em maio de 1959.
Eisenhower continuou a sinalizar disposição para mudar o estatuto de Berlim. Em julho de 1959, disse ao vice-primeiro-ministro soviético Frol Kozlov que a posição estadunidense era ilógica; os Estados Unidos abandonariam seus direitos apenas se uma forma de fazê-lo fosse encontrada. Em Camp David, em setembro, disse a Kruschev que os Estados Unidos não esperavam permanecer cinquenta anos na ocupação de Berlim. Kissinger sugere que, se Kruschev tivesse explorado essas aberturas ou oferecido um acordo plausível, a aliança atlântica poderia ter enfrentado sua crise mais grave. Em vez disso, Kruschev alternou ameaças e pausas, deixando prazos passarem enquanto evitava tanto a confrontação quanto a negociação.
Essa incoerência revelou uma paralisia soviética que os líderes ocidentais não compreenderam plenamente. Kruschev parecia preso entre falcões, que acreditavam em suas afirmações sobre a superioridade soviética, e pombas, que entendiam os riscos de uma guerra com os Estados Unidos. Seu primeiro prazo expirou com apenas uma reunião improdutiva de ministros das Relações Exteriores como resultado, depois da qual Eisenhower ganhou tempo convidando-o aos Estados Unidos. A visita de setembro de 1959 produziu atmosfera, não progresso, e a posterior cúpula de Paris desmoronou depois que os soviéticos derrubaram um avião espião estadunidense U-2. Kruschev usou o incidente para evitar a conferência e, depois, adiou novamente seu prazo para depois da eleição presidencial estadunidense. Suas ameaças haviam se tornado um substituto para o teste de força que ele evitava repetidamente.
Kennedy, o muro e o impasse da era nuclear
Quando John F. Kennedy assumiu o cargo, o ultimato de Kruschev já havia perdido credibilidade por causa dos sucessivos adiamentos. Ainda assim, o fracasso da baía dos Porcos e a indecisão estadunidense no Laos encorajaram Kruschev a testar o novo presidente. Na cúpula de Viena, em junho de 1961, ele impôs um novo prazo de seis meses e exigiu um acordo de paz alemão antes do fim do ano. Acompanhou essa pressão com ameaças nucleares, encerrou a proibição informal de testes nucleares e realizou um teste maciço de cinquenta megatons.
Kissinger situa essas ameaças na ausência mais ampla de um acordo de paz final após a Segunda Guerra Mundial. A ideia de algum acordo alemão não era nova: Churchill, Stalin e George Kennan a haviam defendido em momentos diferentes. Nenhuma dessas propostas se transformou em um acerto abrangente capaz de substituir a divisão já criada no terreno. A ordem europeia do pós-guerra se apoiava em fatos consumados, e o Muro de Berlim se tornou o ato final na definição dessas esferas.
Em 13 de agosto de 1961, forças da Alemanha Oriental ergueram barricadas de arame farpado entre o setor soviético e os setores ocidentais, e depois cercaram o restante de Berlim. O muro dividiu famílias e logo se tornou um sistema fortificado de concreto, minas e cães de guarda. Revelou a falência de um regime comunista que só conseguia reter seus cidadãos aprisionando-os. Ao mesmo tempo, resolveu a crise imediata de mão de obra do regime da Alemanha Oriental ao fechar a rota de fuga por Berlim.
O muro também revelou os limites da política ocidental. As democracias estavam dispostas a defender Berlim Ocidental contra uma agressão aberta. Medidas abaixo desse limiar continuavam sem solução. Kennedy concluiu rapidamente que a construção do muro não constituía o tipo de agressão que justificava ação militar. As opções militares eram ruins em qualquer caso. Se tropas estadunidenses derrubassem a barreira na linha de setor, as autoridades da Alemanha Oriental poderiam reconstruí-la mais atrás. Uma tentativa ocidental de perseguir o muro para dentro de Berlim Oriental teria arriscado uma guerra por um território que o Ocidente já havia tratado tacitamente como parte da esfera soviética.
Berlim Ocidental e Alemanha Ocidental sofreram, apesar disso, um choque severo. Brandt mais tarde remontou sua Ostpolitik à desilusão com a resposta estadunidense, embora Kissinger sugira que o choque teria sido ainda maior se uma guerra resultasse da tentativa de derrubar o muro. Até Adenauer disse a Dean Acheson que queria evitar defender Berlim por meio de uma guerra nuclear, ao mesmo tempo em que reconhecia que nenhum outro meio poderia defendê-la, em última instância, contra um ataque soviético determinado.
Kennedy ainda procurou definir o compromisso estadunidense. Em julho de 1961, aumentou os gastos de defesa, convocou reservistas e enviou mais forças à Europa. Depois da construção do muro, fez 1.500 soldados circularem pela Autobahn através da zona soviética, desafiando Moscou a detê-los, e nomeou o general Lucius Clay como seu representante pessoal em Berlim. Essas medidas sinalizavam que os Estados Unidos defenderiam Berlim Ocidental, embora aceitassem o muro como um fato dentro da esfera soviética.
Kruschev havia novamente criado um beco sem saída para si mesmo. Suas ameaças haviam provocado uma resposta estadunidense que ele não contestou. Informações de Oleg Penkovsky, o infiltrado estadunidense na inteligência militar soviética, mostravam que oficiais soviéticos de alta patente compreendiam a própria falta de preparação e se preocupavam com a imprudência de Kruschev. Eisenhower já havia percebido o blefe dos mísseis, e Kennedy logo entendeu que a União Soviética continuava estrategicamente inferior. Esse desequilíbrio favorecia a potência que defendia o statu quo. Ainda assim, Kennedy, como Eisenhower, não queria arriscar uma guerra nuclear por procedimentos de acesso ou pela reunificação alemã.
Esse era o impasse da era nuclear. As armas nucleares podiam proteger a sobrevivência, mas seu uso era catastrófico demais para sustentar objetivos ordinários de negociação. Mesmo um pequeno risco de destruição civilizacional superava os ganhos disponíveis em Berlim. Ao mesmo tempo, nenhum dos dois lados podia substituir poder por diplomacia. Qualquer concessão grande o bastante para satisfazer Kruschev enfraqueceria a aliança atlântica, enquanto qualquer acordo aceitável para as democracias enfraqueceria Kruschev em casa. A esperança do governo Kennedy de fazer de Berlim a porta de entrada para um novo acerto entre superpotências esbarrou, portanto, nos mesmos limites que haviam constrangido Eisenhower.
Fratura aliada, Cuba e o resultado da contenção
Kennedy diferia de Eisenhower tanto em ambição quanto em método. Eisenhower tratava Berlim como um desafio a ser suportado e superado com o tempo. Kennedy queria negociações diretas soviético-estadunidenses para remover um obstáculo duradouro à paz, e era menos inclinado a conceder aos aliados um direito de veto. Em agosto de 1961, pouco depois da construção do muro, instruiu Dean Rusk a elaborar uma posição própria dos Estados Unidos e deixar claro aos três aliados que eles poderiam acompanhá-la ou ficar para trás. Rusk e Gromyko mantiveram então conversas diretas. Os soviéticos se recusaram até mesmo a concordar sobre uma pauta.
A busca estadunidense por uma posição de negociação se afastou gradualmente de Adenauer. Em agosto de 1961, McGeorge Bundy resumiu o pensamento da Casa Branca em termos de um movimento substancial em direção à aceitação da República Democrática Alemã, da linha Oder-Neisse, de um pacto de não agressão e até de dois tratados de paz. Em setembro, um vazamento estadunidense exortou a Alemanha Ocidental a aceitar a realidade de dois Estados alemães e sugeriu que Bonn melhoraria suas chances de reunificação conversando com a Alemanha Oriental. Bundy depois tranquilizou Bonn ao afirmar que os Estados Unidos não queriam que os alemães se arrependessem de confiar neles, mas também advertiu que nenhum estadista alemão podia ter veto sobre a política ocidental. Kissinger vê essas ideias como mutuamente instáveis: Washington precisava arriscar a guerra por uma posição em que não acreditava ou impor a Bonn um acordo capaz de prejudicar o compromisso alemão com o Ocidente.
As relações entre aliados se deterioraram. O Departamento de Estado desacelerou o impulso de Kennedy por negociações diretas porque seus responsáveis temiam tanto o impasse quanto uma ruptura com Adenauer. Kissinger, então consultor nas margens da política da Casa Branca, julgava que um simples bloqueio não podia ser sustentado. As opiniões públicas ocidentais não aceitariam uma confrontação se todo esforço de negociação não tivesse sido tentado. Ele também acreditava, porém, que negociar na pauta soviética era perigoso, e que os Estados Unidos precisavam de seu próprio plano para o futuro da Alemanha. No mérito, permanecia próximo de Adenauer e Acheson, que temiam que novos arranjos de acesso trocassem vantagens reais por garantias de papel.
Os encontros de Kissinger com Adenauer ilustraram a desconfiança criada pela crise. Adenauer havia se apoiado por muito tempo principalmente nos Estados Unidos, mas a crise de Berlim o empurrou em direção à França. No início de 1962, a Casa Branca pediu a Kissinger que informasse Adenauer sobre os planos de negociação estadunidenses, os cenários militares e as capacidades nucleares. Adenauer permaneceu pouco impressionado com o argumento político, mas tratou a exposição nuclear confidencial como uma questão de confiança moral e ordenou que os registros fossem destruídos.
Em abril de 1962, as relações germano-estadunidenses haviam piorado ainda mais. Um plano estadunidense vazado propunha uma Autoridade Internacional de Acesso para regular o tráfego até Berlim, com participantes ocidentais, participantes comunistas e três Estados neutros, Suécia, Suíça e Áustria, cujos votos poderiam se tornar decisivos. Ao estender essa lógica de paridade ao futuro político alemão, o plano previa comitês compostos igualmente por responsáveis da Alemanha Oriental e da Alemanha Ocidental para promover a unificação. Adenauer considerava esse plano uma elevação perigosa do estatuto da Alemanha Oriental e um mau substituto para um compromisso estadunidense. Em maio de 1962, rejeitou-o publicamente.
Essas divergências permaneceram sem solução. Ainda em julho de 1962, Kennedy disse ao novo embaixador soviético, Anatoly Dobrynin, que os Estados Unidos poderiam estar dispostos a pressionar fortemente os alemães sobre a estrutura de uma autoridade de acesso. Como Adenauer já havia tornado públicas suas objeções, Kruschev tinha razões para saber que poderia explorar uma fratura séria dentro da aliança atlântica. No entanto, no momento em que a diplomacia soviética parecia próxima do sucesso, ele mudou de caminho. Em busca de uma ruptura espetacular que melhorasse seu poder de barganha sobre Berlim, colocou mísseis soviéticos de alcance intermediário em Cuba. Kennedy não podia aceitar essa extensão do poder estratégico soviético ao hemisfério ocidental. Sua condução da crise dos mísseis de Cuba forçou Kruschev a retirar os mísseis e destruiu a credibilidade restante da ofensiva berlinense.
Em janeiro de 1963, Kruschev anunciou que o sucesso do Muro de Berlim tornava desnecessário um tratado de paz separado. A crise de Berlim, depois de cinco anos, estava encerrada. Os aliados haviam preservado sua posição essencial apesar de hesitações repetidas. Kruschev havia conseguido apenas a construção de um muro destinado a impedir que alemães orientais fugissem do sistema que ele afirmava representar o futuro.
O julgamento final de Kissinger é que o Ocidente teve sorte porque Kruschev foi longe demais. A aliança chegou perto da ruptura, e muitos projetos ocidentais de negociação teriam alterado o quadro existente na direção exigida por Moscou. Cada troca proposta teria permutado uma ameaça soviética que nunca deveria ter sido feita por uma melhora objetiva no estatuto da Alemanha Oriental ou em seu papel no acesso. Em quase todas as fórmulas, o temor central de Adenauer estava presente: a Alemanha Oriental ganharia instrumentos para explorar a vulnerabilidade de Berlim, enquanto Bonn seria forçada a escolher entre lealdade aliada e unidade nacional.
Kruschev, entretanto, nunca aproveitou as aberturas disponíveis. Fez um primeiro movimento poderoso e depois esperou que o adversário cedesse sem levar a partida até o fim. Não agiu segundo seus prazos, não explorou a Autoridade de Acesso, não concluiu dois tratados de paz e não transformou o conceito de cidade garantida em uma negociação real. Preso entre falcões e pombas soviéticos, não podia obter suas exigências sem guerra, mas também temia aceitar menos do que sua retórica havia prometido. Sua tentativa de romper o impasse em Cuba acabou, ao contrário, encerrando a crise de Berlim nos termos ocidentais.
As crises de Berlim e de Cuba marcaram juntas uma virada na Guerra Fria. Elas demonstraram uma fraqueza soviética latente mais clara do que os líderes ocidentais reconheceram na época. Kruschev fracassou em remover o posto avançado ocidental em Berlim, e a divisão da Europa em dois blocos foi reafirmada. Depois disso, a União Soviética evitou em grande medida desafios diretos a direitos estadunidenses estabelecidos e deslocou a pressão para guerras de libertação nacional no mundo em desenvolvimento. O reconhecimento da Alemanha Oriental veio mais tarde como uma decisão da Alemanha Ocidental apoiada pelos grandes partidos alemães, não como uma concessão imposta por Washington. No Acordo Quadripartite de 1971, a União Soviética aceitou os procedimentos de acesso e confirmou o estatuto quadripartite de Berlim. Nenhum novo desafio às rotas de acesso ocorreu antes da queda do muro em 1989 e da reunificação alemã. Para Kissinger, o resultado mostrou que a contenção acabou funcionando.
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