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Resumo de Diplomacia, de Kissinger: capítulo 27, Vietnã e Nixon

Detalhe da capa do livro Diplomacy, de Henry Kissinger. A imagem mostra grandes letras serifadas marrons formando Henry Kissinger na metade superior, uma linha horizontal preta no centro e o título Diplomacy em letras serifadas vermelhas abaixo, sobre fundo branco simples, sem pessoas, sala, paisagem ou cena histórica.

A imagem da capa situa este resumo de capítulo no estudo mais amplo de Kissinger sobre diplomacia e ordem internacional.

Em 1994, Henry Kissinger publicou o livro Diplomacia. Ele foi um acadêmico e diplomata renomado, tendo servido como Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado dos Estados Unidos. Seu livro oferece um extenso panorama da história das questões internacionais e da arte da diplomacia, com foco particular no século XX e no mundo ocidental. Kissinger, conhecido por seu alinhamento com a escola realista das Relações Internacionais, trata dos conceitos de equilíbrio de poder, razão de Estado e Realpolitik em diferentes épocas.

Sua obra foi amplamente elogiada pelo seu alcance e pelo seu detalhismo. Todavia, ela também enfrentou críticas por seu foco em indivíduos em detrimento de forças estruturais, e por apresentar uma visão reducionista da história. Além disso, alguns críticos também alegaram que o livro se concentra excessivamente no papel individual de Kissinger nos eventos, potencialmente superestimando sua influência sobre eles. De qualquer forma, as ideias do livro merecem ser consideradas.

Este artigo apresenta um resumo das ideias de Kissinger no vigésimo sétimo capítulo de seu livro, cujo título é "Vietnã: a extração: Nixon".

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Uma guerra herdada e um consenso rompido

A tarefa de Nixon, como Kissinger a apresenta, era retirar os Estados Unidos de sua primeira guerra malsucedida e de um compromisso em que ideais morais estadunidenses haviam colidido com possibilidades políticas e militares. A tarefa foi muitas vezes comparada à saída francesa da Argélia sob Charles de Gaulle, mas Kissinger argumenta que o peso de Nixon era diferente. De Gaulle teve de abandonar uma grande população de colonos franceses cujas famílias viviam na Argélia havia gerações. Nixon precisava liquidar um compromisso que quatro presidentes estadunidenses haviam definido, ao longo de duas décadas, como vital para a defesa dos povos livres.

O cenário doméstico tornava essa tarefa mais difícil. Kissinger destaca a rapidez com que o consenso estadunidense desmoronou. Em 1965, Washington havia entrado na fase principal da guerra sob ampla aprovação, vendo o Vietnã como parte de um desafio comunista mundial e como teste das instituições livres no Sudeste Asiático. Em 1967, muitas das mesmas políticas eram denunciadas como imprudentes e até criminosas. Johnson ficou tão isolado em 1968 que só podia aparecer com segurança em ambientes controlados e não pôde comparecer à convenção nacional do próprio partido. Quando Nixon assumiu o cargo, a oposição apenas fez uma pausa breve antes de voltar com amargura ainda maior.

Para Kissinger, a disputa visível sobre a condução da guerra ocultava uma discussão mais profunda sobre o papel dos Estados Unidos no pós-guerra. Nixon queria uma saída honrosa, isto é, praticamente qualquer acordo que evitasse entregar o Vietnã do Sul e aqueles que haviam dependido dos Estados Unidos ao domínio comunista. Ele acreditava que credibilidade e honra eram condições da capacidade dos Estados Unidos de sustentar uma ordem internacional. Muitos ativistas contra a guerra, em contrapartida, passaram a ver o conflito como tão moralmente repugnante que a honra só poderia existir no seu encerramento, mesmo que isso significasse aceitar a humilhação estadunidense como uma espécie de purificação nacional.

Esse desacordo refletia uma ruptura geracional. Nixon e Johnson pertenciam a uma geração que vira os Estados Unidos ascenderem à liderança global e aceitarem uma missão justa na Guerra Fria. O Vietnã ocorreu quando críticos mais jovens rejeitavam a ideia de Estados Unidos como guardião global moralmente puro. Imagens televisivas de brutalidade, dúvidas sobre Saigon e desilusão com afirmações oficiais tornaram a ambiguidade intolerável. Kissinger argumenta que o excepcionalismo estadunidense, antes fonte de energia e responsabilidade, voltou-se contra a política que ajudara a inspirar.

Nixon entendia que a vitória absoluta havia desaparecido. Ainda assim, ele não podia aceitar uma retirada que parecesse colapso e traição. Kissinger o retrata como sofisticado em política externa e profundamente vulnerável na política doméstica. Nixon interpretava protestos de críticos privilegiados como ataque pessoal e ideológico, de modo que o Vietnã se tornou uma batalha política além de um problema diplomático. Antigos arquitetos do consenso bipartidário em política externa lhe deram pouca ajuda. Muitos passaram a se alinhar, na prática, ao Movimento pela Paz, mantendo o consenso sempre uma concessão além do alcance de Nixon.

A escolha entre más opções

Antes de tomar posse, Nixon fez Kissinger sinalizar ao Vietnã do Norte que o novo governo queria uma solução negociada. Hanói respondeu com o que se tornaria sua posição-padrão: retirada estadunidense incondicional combinada com a derrubada do governo de Nguyen Van Thieu em Saigon. Pouco depois, Hanói lançou a Ofensiva Mini-Tet, durante a qual as mortes estadunidenses ficaram em média em torno de mil por mês durante quatro meses. Kissinger usa esse episódio para mostrar que o Vietnã do Norte não tratou a disposição de Nixon para negociar como abertura à reciprocidade. Ho Chi Minh e a liderança de Hanói acreditavam que a fraqueza de Saigon e a vontade vacilante dos Estados Unidos tornavam possível a vitória total.

Nixon ordenou a revisão de três estratégias possíveis. A primeira era a retirada unilateral. Kissinger rejeita argumentos posteriores de que Nixon poderia simplesmente ter anunciado uma data e encerrado a guerra. Em 1969, sustenta ele, nenhum grande partido havia defendido a retirada incondicional. Mesmo democratas contrários à guerra haviam pedido reduções recíprocas e reconciliação política, não rendição, enquanto a Fórmula de Manila de Johnson e a plataforma republicana também pressupunham condições para a retirada. Portanto, na visão de Kissinger, a retirada unilateral não tinha mandato político claro.

Ela também trazia graves perigos práticos. Mais de meio milhão de soldados estadunidenses lutavam ao lado de forças sul-vietnamitas contra tropas regulares norte-vietnamitas e guerrilhas. O Departamento de Defesa estimava que uma retirada ordenada exigiria ao menos quinze meses. Durante esse período, a força estadunidense encolhida poderia se tornar refém da ira sul-vietnamita e da pressão norte-vietnamita. Se Saigon desmoronasse rapidamente, a retirada poderia ocorrer em meio ao caos. Poderia também trazer termos comunistas mais duros e danos severos à credibilidade estadunidense. Para Kissinger, uma reversão assim, depois de quatro governos terem afirmado o compromisso, teria abalado aliados dependentes da confiabilidade dos Estados Unidos.

A segunda opção era um confronto rápido com Hanói por meio de pressão política e militar. Kissinger afirma que preferia pessoalmente esse caminho. Ele teria exigido aval do Congresso e negociações sérias. Exigiria ainda uma estratégia militar que defendesse centros populacionais sul-vietnamitas enquanto atacava a rede logística de Hanói no Laos, no Camboja e no Vietnã do Norte. Washington adotou mais tarde muitas dessas medidas, incluindo a mineração de portos norte-vietnamitas e ataques a santuários. Kissinger sugere que o uso simultâneo delas, enquanto os Estados Unidos ainda tinham grande força terrestre no Vietnã, poderia ter tido efeito decisivo.

Nixon rejeitou esse caminho em sua forma completa. Ele duvidava que o Congresso desse endosso claro e temia que pedir tal escolha parecesse abdicação da responsabilidade presidencial. Também hesitava em ampliar a pressão militar por possíveis consequências para as relações com a União Soviética e a China, pelas esperanças domésticas de redução das tensões e pela explosão política que uma estratégia mais contundente produziria em casa. Essa estratégia também poderia consumir a energia política necessária para iniciativas maiores, inclusive a diplomacia triangular que depois deu mais flexibilidade à política externa estadunidense.

Restava a terceira opção, a vietnamização. Kissinger a apresenta como o equilíbrio menos perigoso entre três objetivos: preservar a moral doméstica estadunidense, dar ao Vietnã do Sul uma chance justa de se defender e dar a Hanói incentivo para negociar. Retiradas de tropas estadunidenses tranquilizariam o público ao mostrar que a guerra estava terminando. Treinamento e ajuda fortaleceriam Saigon. Retaliações periódicas e iniciativas de paz mostrariam a Hanói que a demora tinha custos. O perigo estava na sincronização. Cada retirada poderia encorajar Hanói, enquanto cada uso da força poderia inflamar o Movimento pela Paz. O memorando de Kissinger de setembro de 1969 alertava que retiradas de tropas poderiam se tornar como “amendoins salgados”: cada retirada aumentaria a demanda por mais, incentivaria Hanói a esperar e deixaria os soldados restantes mais expostos política e militarmente.

Vietnamização e estratégia de Hanói

Kissinger argumenta que, em 1969, todas as escolhas disponíveis eram dolorosas porque os Estados Unidos já haviam pago o preço da sobre-extensão. A vietnamização oferecia ao menos um caminho para reduzir as forças estadunidenses enquanto se testava se o Vietnã do Sul poderia sobreviver com apoio. Se Saigon ganhasse força, o objetivo estadunidense ainda poderia ser alcançado. Se fracassasse, os Estados Unidos poderiam se retirar depois de reduzir o risco de uma enorme força expedicionária ficar presa em humilhação e desordem.

As negociações se desenrolaram nesse pano de fundo estratégico. Kissinger enfatiza que a liderança de Hanói não entendia a guerra como busca de compromisso. Para Le Duc Tho e o Politburo, a guerra de guerrilhas produzia vencedores e vencidos. A vietnamização inicial não os impressionou. Le Duc Tho perguntou como as forças sul-vietnamitas poderiam vencer sozinhas se não haviam vencido com 500 mil estadunidenses ao lado. Só depois de vários anos Hanói aceitou termos que havia rejeitado por muito tempo. Até então, Saigon fora fortalecido, o Vietnã do Norte fora enfraquecido, portos haviam sido minados, suprimentos haviam sido bloqueados e uma grande ofensiva fora derrotada.

A dificuldade, na interpretação de Kissinger, era que o debate doméstico estadunidense usava categorias irrelevantes para o cálculo de Hanói. Nos Estados Unidos, pausas nos bombardeios, cessar-fogos, governos de coalizão e prazos de retirada eram tratados como formas de destravar um compromisso. Hanói os tratava como provas de divisão ou como oportunidades para obter concessões sem alterar seu objetivo. Hanói só negociava seriamente sob pressão, sobretudo quando os bombardeios estadunidenses eram retomados ou quando seus portos eram minados. Essas mesmas pressões, entretanto, intensificavam a crítica dentro dos Estados Unidos, tornando politicamente custosas em casa as ferramentas capazes de mover Hanói.

As negociações tinham vias pública e secreta. As conversas formais de Paris incluíam Estados Unidos, Saigon, Frente Nacional de Libertação e Vietnã do Norte, mas Kissinger as descreve como estéreis: públicas demais, grandes demais e presas demais a questões de reconhecimento. As conversas privadas se tornaram a verdadeira arena. Iniciadas sob os negociadores de Johnson e continuadas por Nixon, elas partiam geralmente do lado estadunidense, um padrão que Hanói explorava para sugerir domínio psicológico e insinuar que Washington negligenciava a paz sempre que retardava o contato.

O relato de Kissinger sobre Le Duc Tho é central para o retrato de Hanói no capítulo. Tho aparece como revolucionário disciplinado, impecavelmente cortês, rigidamente ideológico e decidido a usar o tempo como arma. Até outubro de 1972, insistiu que os Estados Unidos fixassem um prazo de retirada incondicional e desmontassem o governo Thieu antes que uma negociação política genuína pudesse começar. O sentido dessa rigidez era mostrar que Hanói acreditava que as divisões estadunidenses derrotariam a política dos Estados Unidos.

Pressão doméstica e fórmula de coalizão

Enquanto Hanói permanecia firme, Nixon enfrentava ataques constantes à sua boa-fé. Em setembro de 1969, os Estados Unidos haviam aceitado a participação da FNL na política e comissões eleitorais mistas. Aceitara ainda retirada parcial de tropas e retirada total depois de um acordo. Hanói respondeu repetindo sua exigência de retirada unilateral e derrubada de Saigon. Ainda assim, o senador Charles Goodell propôs um prazo para remover todas as forças estadunidenses até o fim de 1970, e as manifestações Moratorium de outubro de 1969 mostraram a escala da mobilização contra a guerra.

Kissinger interpreta o Movimento pela Paz como excepcionalismo estadunidense voltado para dentro. Seus líderes tratavam qualquer discussão sobre uma saída prática como prova de desejo de continuar a guerra. Uma vez que a guerra se tornou, em termos domésticos, uma luta entre bem e mal, o colapso no Vietnã parecia preferível a um resultado que pudesse ser chamado de honroso. Por isso, reduções de tropas e baixas não aliviaram a desconfiança. Nixon reduziu as forças estadunidenses de quase 550 mil para cerca de 20 mil em três anos. O desacordo fundamental permaneceu intacto: ele queria sair com honra, enquanto o Movimento pela Paz acreditava que a honra exigia sair incondicionalmente.

O status do governo de Saigon tornou-se o eixo da discussão. Se encerrar a guerra era o único teste, Thieu aparecia como obstáculo, não como aliado. Críticos passaram a exigir cada vez mais um governo de coalizão e às vezes propunham cortar fundos ao Vietnã do Sul caso Thieu resistisse. Kissinger argumenta que a proposta de coalizão de Hanói explorava esse clima. O corpo tripartite proposto incluiria a FNL, neutralistas e membros aceitáveis da administração de Saigon, mas negociaria com a FNL em vez de governar. Em sua leitura, uma estrutura dominada por comunistas negociaria com uma organização comunista.

O governo Nixon estava disposto a arriscar Thieu em eleições supervisionadas internacionalmente, mas se recusava a derrubar um governo aliado criado sob política estadunidense anterior. Em 1972, os Estados Unidos haviam retirado cerca de 500 mil soldados e oferecido remover o restante nos quatro meses posteriores a um acordo. Tinham aceitado eleições livres e obtido a disposição de Thieu de renunciar um mês antes dessas eleições. Essas concessões estavam ligadas a um cessar-fogo supervisionado internacionalmente e à devolução de prisioneiros. Mesmo assim, deixaram os críticos imóveis porque a guerra ainda não terminara.

O debate sobre prazos fixos de retirada tornou-se especialmente danoso. Resoluções contra a guerra proliferaram no Congresso em 1971 e 1972, geralmente sem força vinculante, permitindo que seus patrocinadores se opusessem ao governo sem assumir responsabilidade pelas consequências. Hanói incentivou a crença de que a libertação de prisioneiros e outras questões se seguiriam assim que os Estados Unidos fixassem um prazo firme. Kissinger argumenta que isso era falso. Le Duc Tho falava apenas em criar condições favoráveis. Nas negociações reais, insistia que um prazo de retirada, uma vez fixado, permaneceria vinculante independentemente dos termos do cessar-fogo, da libertação de prisioneiros ou do futuro político de Saigon. A verdadeira exigência de Hanói continuava igual: retirada estadunidense mais substituição do governo sul-vietnamita.

O avanço de 1972 e o Acordo de Paris

O debate sobre a retirada forçou Nixon a aceitar que, uma vez cumpridas as condições estadunidenses, os Estados Unidos não deixariam força residual. Kissinger vê isso como uma vitória de Pirro. Na Europa e na Coreia, forças estadunidenses permaneceram por décadas para estabilizar armistícios e dissuadir nova agressão. No Vietnã, a dissidência doméstica empurrou os Estados Unidos a prometer retirada completa, deixando o Vietnã do Sul diante de um inimigo determinado sob condições que nenhum outro grande aliado estadunidense fora obrigado a suportar.

Nixon expôs publicamente os termos para a solução em discursos de 25 de janeiro e 8 de maio de 1972. Os Estados Unidos exigiam cessar-fogo supervisionado internacionalmente, retorno e contabilidade de prisioneiros, continuidade da ajuda econômica e militar a Saigon e processo político no Vietnã do Sul a ser decidido pelas partes vietnamitas por meio de eleições livres. Em 8 de outubro de 1972, Le Duc Tho aceitou os termos essenciais dos Estados Unidos. Hanói abandonou a exigência de que os Estados Unidos ajudassem a desmontar o governo Thieu, aceitou um cessar-fogo, concordou em devolver prisioneiros e prestar contas dos desaparecidos, e permitiu que os Estados Unidos continuassem auxiliando Saigon.

Kissinger atribui a mudança de Hanói a várias causas. A mineração dos portos norte-vietnamitas esgotou suprimentos. Ataques a santuários no Camboja e no Laos enfraqueceram a rede logística. A ofensiva da primavera de 1972 fracassou. Moscou e Pequim não apoiaram Hanói de modo eficaz quando os Estados Unidos retomaram os bombardeios. Acima de tudo, Hanói leu mal as consequências políticas da esperada reeleição esmagadora de Nixon, supondo que ela lhe daria mãos mais livres para conduzir a guerra. O governo acreditava no oposto: o próximo Congresso provavelmente seria mais hostil, e cortes de financiamento logo poderiam impor um fim desfavorável. Essa urgência tornou necessário um acordo assim que Hanói aceitou os termos que Nixon prometera aceitar.

Kissinger esperava que o acordo permitisse uma cura nacional. A paz deveria ter satisfeito ambos os lados: o Movimento pela Paz veria as tropas estadunidenses saírem, enquanto defensores de uma solução honrosa poderiam dizer que os Estados Unidos respeitaram o futuro político do Vietnã do Sul e evitaram o abandono explícito de um aliado. Essa esperança fracassou. Os três meses entre o avanço de outubro e a assinatura de 27 de janeiro de 1973, combinados com o bombardeio de B-52 na área de Hanói em dezembro de 1972, transformaram o acordo final em ocasião de exaustão, não de reconciliação. Manifestantes permaneceram céticos, acusando o acordo de ser manobra eleitoral, de que os mesmos termos sempre estiveram disponíveis ou de que Nixon traíra Thieu.

Kissinger rejeita a afirmação de que Nixon prolongou a guerra por quatro anos para obter termos disponíveis em 1969. Ele argumenta que Washington fechou o acordo rapidamente assim que Hanói aceitou termos antes recusados. Concede que, em retrospecto, alguém poderia argumentar que a capitulação deveria ter sido o objetivo estadunidense em 1969. No entanto, insiste que nenhum grande candidato, plataforma partidária ou mandato eleitoral de 1968 apoiava esse objetivo. Os Estados Unidos buscaram compromisso, não rendição.

Camboja e o fracasso da reconciliação

O capítulo trata o Camboja como a questão que destruiu qualquer chance restante de unidade. Nixon não havia herdado combate estadunidense ali da mesma forma direta em que herdara o Vietnã, de modo que o Camboja se tornou a controvérsia mais inflamável do período. Kissinger identifica duas acusações principais contra o governo: que Nixon expandiu gratuitamente a guerra e que a política estadunidense teve responsabilidade primária pelo genocídio do Khmer Vermelho depois de 1975.

Kissinger responde à primeira acusação de modo estratégico. Ele argumenta que a guerra nunca esteve confinada ao Vietnã do Sul, porque Hanói lutava em todo o teatro indochinês. Forças norte-vietnamitas haviam construído santuários dentro do Camboja, perto da fronteira sul-vietnamita, abastecidos pelo Laos e por Sihanoukville, e os usavam para lançar grandes ataques. À medida que as retiradas estadunidenses se aceleravam, deixar esses santuários intactos teria tornado insustentável a posição das tropas estadunidenses restantes e do Vietnã do Sul. Os ataques aéreos de 1969 responderam a ataques norte-vietnamitas letais, enquanto as operações terrestres de 1970 buscavam proteger retiradas rápidas.

A controvérsia logo foi além da estratégia militar. Para os críticos, o Camboja confirmava a ilegitimidade moral da guerra. Para Kissinger, a crítica revelava uma falha em compreender a ideologia revolucionária e o caráter do Khmer Vermelho. Ele argumenta que o Khmer Vermelho já era fanático antes da intervenção estadunidense no Camboja e já pretendia destruir a sociedade cambojana existente. Por isso, rejeita alegações de que ações estadunidenses o tornaram genocida. Qualquer que fosse a sabedoria tática das decisões estadunidenses, Kissinger insiste que o Khmer Vermelho cometeu os assassinatos e que os cambojanos pagaram o preço quando a divisão doméstica dos Estados Unidos tornou impossível o apoio continuado ao governo cambojano.

Este é um dos juízos mais duros do capítulo. Kissinger diz que a sociedade estadunidense fracassou no teste de subordinar divisões internas a objetivos comuns. Os críticos que ajudaram a cortar a ajuda ao Camboja não desejavam um banho de sangue. A seu ver, julgaram gravemente mal o inimigo e depois se concentraram mais em condenar a política estadunidense do que em enfrentar as consequências desse erro. Nesse sentido, o Camboja se torna, para Kissinger, símbolo da tragédia vietnamita mais ampla: a certeza moral doméstica sobrepujou a pergunta prática sobre o que aconteceria a povos vulneráveis depois que os Estados Unidos se retirassem.

Cumprimento, abandono e vitória comunista

O Acordo de Paris encerrou o papel militar direto dos Estados Unidos e deixou vivo o problema estratégico. Kissinger ressalta que nenhuma figura sênior do governo Nixon acreditava que o acordo fosse seguro por si só. O Vietnã do Norte não havia abandonado o objetivo de unificar o Vietnã sob seu governo. O governo acreditava que o Vietnã do Sul poderia resistir à pressão previsível se Hanói respeitasse a proibição de nova infiltração e se os Estados Unidos preservassem apoio econômico e militar. Se o Vietnã do Norte violasse maciçamente o acordo, porém, o governo acreditava que o poder aéreo estadunidense poderia ser necessário para impor a solução.

Kissinger argumenta que a capacidade de cumprimento fazia parte do significado de qualquer acordo de paz. Termos que não podem ser defendidos equivalem à rendição. Entretanto, o padrão doméstico se repetiu. Com Watergate enfraquecendo a presidência, Nixon não pôde insistir nas respostas militares fortes que o cumprimento exigia. Caminhões norte-vietnamitas circularam pela Trilha Ho Chi Minh. Cerca de 50 mil soldados norte-vietnamitas entraram no Vietnã do Sul, e Hanói evitou prestar contas de estadunidenses desaparecidos. O Congresso e os críticos ainda negavam a Nixon autoridade para responder. Em junho de 1973, o Congresso proibiu o financiamento de atividades estadunidenses de combate em toda a Indochina depois de 15 de agosto. A proibição incluía operações sobre o Camboja, o Laos e as duas metades do Vietnã, além de reconhecimento.

O apoio ao Vietnã do Sul também se erodiu. O Congresso havia aprovado 2 bilhões de dólares em ajuda em 1972, reduziu esse valor para 1,4 bilhão em 1973 e cortou-o pela metade em 1974 apesar da quadruplicação dos preços do petróleo. Em 1975, discutia uma concessão terminal de 600 milhões. O Camboja foi cortado por completo sob o argumento de que o corte salvaria vidas. Em 1975, Camboja e Vietnã do Sul caíram diante de forças comunistas com duas semanas de diferença. A formulação de Kissinger é severa: o resultado encerrou o tormento emocional dos Estados Unidos enquanto o sofrimento da Indochina continuava.

O desfecho, para Kissinger, resolveu um dos debates morais da guerra. No Camboja, o Khmer Vermelho matou ao menos 15% da população. No Vietnã, centenas de milhares de sul-vietnamitas foram enviados a campos de reeducação. Admissões oficiais de 50 mil presos políticos provavelmente subestimavam a escala. A Frente Nacional de Libertação e o Governo Revolucionário Provisório, apresentados por muito tempo no Ocidente como base de uma coalizão plural, revelaram-se politicamente descartáveis. Hanói marginalizou instituições do GRP e colocou o Sul sob comitês militares e partidários. Depois avançou para a reunificação formal em menos de um ano.

Kissinger também revisita a teoria do dominó com qualificações. Em sentido estrito, os únicos dominós vizinhos que caíram foram Camboja e Laos. Mesmo assim, ele argumenta que revolucionários antiocidentais em outros lugares foram encorajados pela percepção de que os Estados Unidos haviam colapsado na Indochina, sido enfraquecidos por Watergate e recuado para o isolamento. Ele liga essa atmosfera à intervenção cubana em Angola e ao envolvimento soviético na Etiópia, ao mesmo tempo em que sugere que um colapso sul-vietnamita no começo da década de 1960 poderia ter afetado a tentativa de golpe comunista na Indonésia em 1965. O ponto mais amplo é que a Indochina teve consequências além de sua geografia imediata, ainda que as versões mais mecânicas da teoria do dominó fossem simples demais.

As lições que Kissinger extrai do Vietnã

Kissinger conclui que os Estados Unidos pagaram um preço desproporcional a qualquer ganho possível porque haviam aplicado lições da Europa a uma região com condições políticas, sociais e econômicas muito diferentes. O idealismo wilsoniano supunha que valores estadunidenses poderiam ser universalizados sem atenção suficiente à cultura ou ao desenvolvimento político. A segurança coletiva sugeria que toda violação importava porque a ordem internacional era indivisível. Esses pressupostos levaram os Estados Unidos a apostar demais em objetivos mal definidos em uma sociedade na qual a democratização era muito mais difícil do que os formuladores de políticas esperavam e na qual objetivos militares e políticos não podiam ser separados.

O dominó mais grave a cair, no julgamento de Kissinger, foi a coesão social estadunidense. Autoridades e críticos haviam compartilhado uma crença excessivamente otimista de que o Vietnã do Sul poderia ser rapidamente transformado em uma sociedade democrática. Quando essa esperança ruiu, a desilusão se voltou para dentro. Ele não nega que autoridades entenderam e apresentaram mal a guerra, nem desculpa tergiversação deliberada. Ainda assim, argumenta que muito do que depois se tornou a “lacuna de credibilidade” surgiu de autoengano, embelezamento burocrático e falsa confiança que formuladores de políticas exibem quando precisam defender uma decisão. O Congresso conhecia a escala do compromisso e o financiou repetidamente. Em sua visão, os Estados Unidos entraram no Vietnã abertamente, ainda que de modo ingênuo.

As lições que Kissinger extrai são três. Primeiro, antes de entrar em combate, os Estados Unidos precisam entender a ameaça e definir objetivos realistas. Devem também adotar uma estratégia militar clara e saber como seria um resultado político bem-sucedido. Segundo, uma vez comprometidos com ação militar, não podem substituir vitória por execução hesitante. Impasse prolongado drena a resistência pública. Terceiro, uma política externa séria em uma democracia exige que facções domésticas valorizem propósitos nacionais comuns acima da vitória umas contra as outras. Nixon acreditava ter o dever de defender o interesse nacional contra uma dissidência apaixonada. Kissinger conclui que presidentes não podem conduzir guerra por decreto executivo. Nixon deveria ter ido cedo ao Congresso e exigido endosso claro. Se este fosse negado, deveria ter forçado o Congresso a assumir responsabilidade pela liquidação.

Esse julgamento é qualificado, não meramente acusatório. Kissinger descreve a recusa de Nixon em transferir o peso como honrosa, moral e intelectualmente defensável, porque Nixon temia que a história condenasse as consequências da abdicação. Ainda assim, o sistema constitucional estadunidense não foi desenhado para colocar tal peso sobre um só homem. O Vietnã forçou os Estados Unidos a confrontar os limites do poder material, da confiança moral e da vontade executiva.

O capítulo termina com uma ironia histórica mais ampla. Os Estados Unidos lutaram no Vietnã para deter o que viam como avanço comunista dirigido centralmente e fracassaram. Moscou interpretou esse fracasso como prova de que o equilíbrio global havia mudado e se expandiu do Iêmen e de Angola para a Etiópia e o Afeganistão. A sobre-extensão soviética levou à desintegração. A angústia estadunidense acabou se tornando recuperação. Kissinger não trata essa ironia como licença para a passividade. Um estadista, argumenta ele, não pode transformar abdicação em princípio, porque confiar no colapso eventual de um adversário não ajuda vítimas imediatas e transforma a política em aposta. O tormento dos Estados Unidos em torno do Vietnã revelou a severidade de sua consciência moral, e sua recuperação posterior mostrou que a crise não destruiu sua capacidade de liderança. A memória da Indochina torna-se, portanto, na interpretação final de Kissinger, um alerta de que o poder estadunidense exige unidade tanto quanto propósito.


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