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Resumo: Diplomacia, de Kissinger — Capítulo 7 — A “Máquina do Juízo Final” política

Detalhe da capa do livro Diplomacy, de Henry Kissinger. A imagem mostra grandes letras serifadas marrons formando Henry Kissinger na metade superior, uma linha horizontal preta no centro e o título Diplomacy em letras serifadas vermelhas abaixo, sobre fundo branco simples, sem pessoas, sala, paisagem ou cena histórica.

A imagem da capa situa este resumo de capítulo no estudo mais amplo de Kissinger sobre diplomacia e ordem internacional.

Em 1994, Henry Kissinger publicou o livro Diplomacia. Ele foi um acadêmico e diplomata renomado, tendo servido como Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado dos Estados Unidos. Seu livro oferece um extenso panorama da história das questões internacionais e da arte da diplomacia, com foco particular no século XX e no mundo ocidental. Kissinger, conhecido por seu alinhamento com a escola realista das Relações Internacionais, trata dos conceitos de equilíbrio de poder, razão de Estado e Realpolitik em diferentes épocas.

Sua obra foi amplamente elogiada pelo seu alcance e pelo seu detalhismo. Todavia, ela também enfrentou críticas por seu foco em indivíduos em detrimento de forças estruturais, e por apresentar uma visão reducionista da história. Além disso, alguns críticos também alegaram que o livro se concentra excessivamente no papel individual de Kissinger nos eventos, potencialmente superestimando sua influência sobre eles. De qualquer forma, as ideias do livro merecem ser consideradas.

Este artigo apresenta um resumo das ideias de Kissinger no sétimo capítulo de seu livro, cujo título é "A máquina política do juízo final: a diplomacia europeia antes da Primeira Guerra Mundial".

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O colapso da contenção no equilíbrio de poder

No fim da primeira década do século XX, o Concerto da Europa praticamente deixara de operar. Por cerca de um século depois das Guerras Napoleônicas, o Concerto havia ajudado as grandes potências a conter crises por meio de consulta, flexibilidade e interesse compartilhado em evitar uma guerra continental. Esse sistema permitia rivalidade, coerção e conflito limitado enquanto preservava procedimentos e hábitos de contenção. Na interpretação de Kissinger, a ordem anterior a 1914 manteve a linguagem do equilíbrio enquanto substituía a lógica do equilíbrio por uma corrida armamentista e por uma divisão em dois blocos cada vez mais inflexíveis.

O resultado lembrava a Guerra Fria em sua estrutura bipolar, mas diferia dela em um aspecto decisivo. Na era nuclear, evitar a guerra geral tornou-se objetivo central da política porque os custos eram manifestamente catastróficos. Antes de 1914, líderes europeus ainda presumiam que a guerra podia ser limitada e politicamente utilizável. Alguns pensadores até tratavam a guerra periódica como uma espécie de força purificadora. A Primeira Guerra Mundial destruiu essa ilusão apenas depois que os líderes europeus haviam absorvido sistemas modernos de mobilização em hábitos diplomáticos mais antigos sem compreender a nova escala do risco.

Kissinger rejeita a ideia de que a responsabilidade pela catástrofe possa ser atribuída a um único país. Cada grande potência contribuiu com miopia, irresponsabilidade ou complacência. Ainda assim, ele dá peso especial à Alemanha e à Rússia. Suas naturezas políticas corroeram a contenção no centro do sistema europeu. A Alemanha recém-unificada era militarmente formidável e buscou segurança de maneiras que assustavam todos os seus vizinhos. A Rússia vasta e persistente perseguia expansão em áreas que o Concerto tratava como questões europeias: os Bálcãs, o Império Otomano e os Estreitos. Depois que essas duas potências se confrontaram, a paz da Europa passou a depender fortemente da capacidade britânica de permanecer como equilibradora independente. A conduta alemã tornou isso gradualmente impossível.

A insegurança alemã depois da unificação

Kissinger começa seu relato sobre a Alemanha com o paradoxo de um Estado forte que se comportava como se estivesse permanentemente ameaçado. A insegurança alemã tinha raízes históricas. Por dois séculos, as terras alemãs haviam sido o campo de batalha das guerras europeias, em vez de seu principal instigador. A Guerra dos Trinta Anos devastou a população alemã, e muitas campanhas importantes do século XVIII e da era napoleônica foram travadas em solo alemão. Uma Alemanha unificada, portanto, tinha interesse compreensível em impedir o retorno à vulnerabilidade.

Kissinger argumenta, porém, que o novo Império Alemão abordou esse problema de modo estreito demais, como uma questão militar. Depois da unificação, a Alemanha já não era a Prússia vulnerável de Frederico, o Grande. Era a potência continental mais forte e, por causa dessa força, precisava de moderação diplomática excepcional. Em vez disso, após a queda de Bismarck, líderes alemães muitas vezes agiram como se o poder pudesse impor tranquilização. Sua busca por segurança absoluta produziu insegurança para outros, e seus vizinhos responderam aproximando-se entre si.

Kissinger atribui parte do problema alemão ao caráter artificial do Reich de Bismarck. A Grã-Bretanha, a França e até a Áustria se apoiavam em ideias integradoras mais amplas do que a nova Alemanha. Ela não era um Estado liberal baseado em liberdades tradicionais, nem um Estado revolucionário com doutrina universal, nem um império multinacional com antiga missão imperial. Era, na frase de Kissinger, essencialmente uma Prússia ampliada, criada para aumentar seu próprio poder e excluindo deliberadamente os alemães austríacos. Essa falta de propósito filosófico ajudou a tornar a política externa alemã inquieta e sem rumo.

O planejamento militar alemão aprofundou o perigo. Como a Alemanha imaginava que algum dia talvez precisasse lutar contra todos os vizinhos ao mesmo tempo, preparou-se para o pior cenário. Esses preparativos, por sua vez, confirmaram os medos dos Estados ao redor. Uma Alemanha forte o bastante para derrotar todos os vizinhos combinados era obviamente forte o bastante para derrotar qualquer um deles isoladamente. Assim, a busca alemã por segurança criou a psicologia de coalizão que mais temia.

Bismarck compreendera esse perigo e usara um sistema complexo de alianças para conter os parceiros da Alemanha tanto quanto para protegê-la. Sua diplomacia diminuía a saliência do poder alemão, preservava múltiplos canais e impedia que interesses incompatíveis se endurecessem em campos hostis. Seus sucessores não tinham sua paciência nem sua sutileza. Preferiam fórmulas mais simples, afirmação pública e força militar. O resultado foi uma política externa que combinava truculência com indecisão: a Alemanha ameaçava com frequência, definia mal seus objetivos e recuava quando as crises se tornavam perigosas.

O Kaiser, a Weltpolitik e a política da encenação

A ascensão de Guilherme II deu a esse padrão diplomático um estilo pessoal. Depois que o imperador Guilherme I morreu em 1888 e Frederico III governou brevemente antes de morrer de câncer, Guilherme II herdou o trono. Em 1890, demitiu Bismarck, recusando-se a governar à sombra do fundador do império. Kissinger trata essa decisão como um ponto de inflexão porque ela removeu o único estadista capaz de tornar a força da Alemanha compatível com o equilíbrio europeu.

Guilherme II queria reconhecimento internacional da importância da Alemanha, mas não tinha conceito coerente de como o poder alemão deveria ser usado. Ele e seu entorno falavam em Weltpolitik, ou política mundial, sem definir sua relação com o interesse nacional. Os slogans eram grandiosos, o tom era agressivo e a substância era fraca. Kissinger enfatiza essa distância entre retórica e propósito: líderes alemães faziam gestos dramáticos sem saber qual acordo desejavam, e sua fanfarronice muitas vezes escondia timidez quando a confrontação exigia perseverança.

Esse padrão ajudou a produzir a notável inversão de alianças depois da demissão de Bismarck. No fim do século XIX, a Grã-Bretanha e a França eram rivais coloniais, a Grã-Bretanha e a Rússia se opunham havia muito tempo na Ásia Central e no Oriente Próximo, e a Grã-Bretanha buscara repetidamente parceiros contra a Rússia. Em 1898, a Grã-Bretanha e a França quase entraram em guerra pelo Egito. Contudo, em menos de uma década, Grã-Bretanha, França e Rússia caminhavam para o mesmo lado. Kissinger vê essa inversão como produto da pressão alemã, de erros de cálculo e da incapacidade de entender como a política de equilíbrio de poder funcionava.

Líderes alemães se ressentiam da relutância de outros Estados em se aliar à potência continental mais forte da Europa. Sua resposta foi intimidar esses Estados para que reconhecessem o valor da amizade alemã. Esse método teve o efeito oposto. Ao ameaçar insegurança absoluta para os outros, a Alemanha acionou contracoalizões. O ponto central de Kissinger é que a dominação não tem atalho diplomático. Se um Estado busca hegemonia, intencionalmente ou pela acumulação de capacidades que outros não conseguem tolerar, acaba diante da escolha entre contenção e guerra.

A expansão russa e a fraqueza da política autocrática

Durante grande parte da existência da Alemanha imperial, a Rússia, não a Alemanha, fora considerada a principal ameaça à paz. Líderes britânicos como Palmerston e Disraeli temiam avanços russos em direção ao Egito, à Índia e aos Estreitos. Em 1913, líderes alemães haviam desenvolvido medo correspondente de serem sobrepujados pelo poder russo. Kissinger reconhece que os preparativos militares russos eram reais, mas argumenta que os preparativos de todas as potências haviam se desprendido de objetivos políticos definíveis. Ferrovias, calendários de mobilização e Estados-maiores produziam evidência de prontidão militar por toda parte. Como esses preparativos não se vinculavam a objetivos limitados, eram interpretados como prova de vastas ambições hostis.

A Rússia parecia especialmente ameaçadora por seu tamanho, sua persistência e sua relação ambígua com a Europa. No Ocidente, participava do Concerto da Europa e escutava argumentos sobre equilíbrio. Ainda assim, tentava repetidamente decidir o destino da Turquia, dos Bálcãs e dos Estreitos de modo unilateral ou pela força. Kissinger liga esse padrão a crises que vão do Tratado de Adrianópolis e de Unkiar Skelessi à Guerra da Crimeia e aos conflitos balcânicos do século XIX. A Rússia esperava que a Europa aceitasse suas reivindicações especiais e se sentia lesada quando outras potências tratavam essas questões como assuntos do Concerto.

Na Ásia, a expansão russa era ainda menos contida por hábitos diplomáticos europeus. Avançou pela Sibéria e pelo Extremo Oriente, negociou tratados desiguais com a China e passou a imaginar que grandes partes da Ásia poderiam cair naturalmente sob influência russa. Serge Witte podia dizer a Nicolau II que a fronteira e a posição da Rússia tornavam a absorção de uma grande parte do Império Chinês apenas questão de tempo. Essas afirmações refletiam uma tendência russa mais ampla a identificar grandeza com acumulação territorial, mesmo quando novos territórios enfraqueciam o Estado em vez de fortalecê-lo.

A estrutura de formulação de políticas da Rússia ampliava essa tendência. O Ministério das Relações Exteriores, frequentemente composto por autoridades orientadas para a Europa, era apenas uma parte do sistema. O Departamento Asiático lidava com o Império Otomano, os Bálcãs e o Extremo Oriente, justamente as zonas nas quais a Rússia avançava. Esse departamento operava fora dos principais hábitos da diplomacia do Concerto da Europa. Enquanto isso, o czar permanecia como a única autoridade decisiva. Ministros das Relações Exteriores não tinham o poder executivo de figuras como Bismarck, Salisbury ou Roosevelt. A política, portanto, era vulnerável à política de corte, ao aventureirismo militar, à agitação nacionalista e aos humores ou ausências do autocrata.

No reinado de Nicolau II, argumenta Kissinger, a Rússia pagava por essa estrutura arbitrária. A derrota para o Japão em 1905 deveria ter encorajado consolidação doméstica, sobretudo nas linhas associadas a Piotr Stolypin. Em vez disso, a Rússia voltou ao pan-eslavismo e ao sonho de influência em Constantinopla. Kissinger considera isso trágico porque a verdadeira necessidade russa era o desenvolvimento interno. Depois de certo ponto, a expansão não aumentava o poder russo; drenava-o. O país lutou guerras demais, absorveu custos superiores ao valor de seus ganhos e continuou faminto por territórios de que não precisava e que não podia digerir.

A Grã-Bretanha como equilibradora e o fim do esplêndido isolamento

A colisão entre uma Alemanha impetuosa e uma Rússia persistente tornou decisiva a posição britânica. Em 1890, “esplêndido isolamento” ainda descrevia a política britânica. A Grã-Bretanha se orgulhava de agir como roda de equilíbrio da Europa, permanecer fora de alianças continentais permanentes e intervir apenas quando necessário para impedir que uma única potência dominasse o continente. Em vinte e cinco anos, soldados britânicos morriam em Flandres ao lado da França contra a Alemanha. Kissinger apresenta essa transformação como um dos desenvolvimentos cruciais do capítulo.

O estadista que presidiu a primeira parte da transição foi Lord Salisbury, figura profundamente enraizada em pressupostos britânicos tradicionais. Salisbury acreditava que a Grã-Bretanha deveria permanecer ativa no mar, defender interesses imperiais e evitar enredamento em sistemas de alianças continentais. Ainda assim, também precisava adaptar-se a uma distribuição de poder em mudança. A economia alemã crescia. A França e a Rússia pressionavam a Grã-Bretanha em regiões coloniais, enquanto as reivindicações informais do império se estendiam por um amplo arco do Golfo Pérsico à China e ao Norte da África. A Grã-Bretanha permanecia preeminente, mas já não era incontestada.

Os Acordos do Mediterrâneo de 1887 associaram indiretamente a Grã-Bretanha à Tríplice Aliança de Alemanha, Áustria-Hungria e Itália, sobretudo para fortalecer sua posição contra a França no Norte da África e a Rússia nos Bálcãs. Esses acordos eram expedientes temporários. A pressão geopolítica gradualmente retirava a Grã-Bretanha do isolamento, e a Alemanha tinha uma oportunidade real de moldar a transição. Em vez disso, a Alemanha entendeu mal tanto a política britânica quanto suas próprias necessidades.

O erro alemão mais consequente veio em 1890, quando Guilherme II e seus conselheiros recusaram renovar o Tratado de Resseguro com a Rússia. Queriam uma política mais simples, queriam tranquilizar a Áustria e esperavam abrir caminho para uma aliança com a Grã-Bretanha. Kissinger julga os três motivos como evidência de imaturidade geopolítica. A posição alemã exigia complexidade. A aliança simultânea de Bismarck com a Áustria e seu tratado com a Rússia haviam permitido à Alemanha conter os medos austríacos e as ambições russas. Encerrar o Tratado de Resseguro reduziu a influência alemã sobre a Áustria e convenceu a Rússia de que a Alemanha havia escolhido a Áustria nos Bálcãs.

A Rússia, portanto, começou a olhar para a França. A Alemanha esperava que o foco francês na Alsácia-Lorena e o foco russo nos Bálcãs os mantivessem separados. Justamente porque a Alemanha havia se amarrado à Áustria, a França e a Rússia passaram a precisar uma da outra. A França não podia esperar recuperar a Alsácia-Lorena sem enfraquecer a Alemanha. A Rússia também não podia esperar herdar ou influenciar territórios eslavos no Império dos Habsburgo se a Alemanha estivesse firmemente atrás da Áustria. O acordo diplomático franco-russo de 1891 e a convenção militar de 1894, portanto, marcaram um divisor de águas. O que começou como apoio diplomático tornou-se uma aliança militar dirigida, na prática, contra a Alemanha.

Para Kissinger, esse desenvolvimento enfraqueceu o equilíbrio de poder porque a flexibilidade desaparecia. Um equilíbrio funcional exige alinhamentos móveis e um equilibrador capaz de impedir que uma coalizão se torne dominante ou alianças frouxas que possam negociar e se rearranjar questão por questão. Depois da aliança franco-russa, a Grã-Bretanha ainda tinha chance de permanecer como equilibradora. Quando a Grã-Bretanha se aproximou da França e da Rússia, o equilíbrio de poder endureceu em um sistema de soma zero.

A busca fracassada por um entendimento anglo-alemão

A Alemanha ainda esperava compensar o alinhamento franco-russo por meio da Grã-Bretanha, mas seus métodos repetidamente derrotavam seu propósito. A Grã-Bretanha tradicionalmente aceitava arranjos militares limitados contra perigos específicos ou entendimentos informais baseados em interesses paralelos. Não queria uma aliança continental aberta. A Alemanha, por sua vez, exigia uma garantia formal de “tipo continental”. Isso era mais do que a Grã-Bretanha estava preparada para dar e mais do que a Alemanha precisava. Kissinger enfatiza que a Alemanha não precisava que a Grã-Bretanha lutasse ao seu lado; precisava apenas de neutralidade benevolente britânica em uma guerra continental. Um entendimento do tipo entente poderia ter servido a esse objetivo.

Líderes alemães, em vez disso, ofereceram defender o Império Britânico em troca de compromissos amplos da Grã-Bretanha. Essa oferta aumentou a suspeita britânica porque sugeria que a Alemanha queria um alinhamento global que ampliaria o poder alemão. A impaciência alemã aprofundou o problema. Salisbury observou que, depois da saída de Bismarck, a diplomacia alemã se tornara mais fácil de lidar nas maneiras e mais pobre em penetração.

A política doméstica da Alemanha tornava a contenção mais difícil. Grupos de pressão nacionalistas, apoiados por elementos das classes industrial e profissional, tratavam a diplomacia como disputa de orgulho. Exigiam colônias, expansão naval, ganhos territoriais e linha mais dura em toda disputa. Na Grã-Bretanha e na França, o nacionalismo era canalizado por instituições parlamentares. Na Alemanha, a agitação nacionalista operava por pressão extraparlamentar sobre um governo fraco. Até um sistema autocrático podia ser altamente sensível à opinião pública quando líderes temiam ser acusados de humilhação.

O Telegrama Krüger de 1896 mostrou a força destrutiva desse clima. Depois do fracassado Jameson Raid contra o Transvaal bôer, a opinião alemã exigiu que a Grã-Bretanha fosse humilhada. Guilherme II parabenizou o presidente Paul Krüger por repelir ataque externo, gesto que parecia desafiar a Grã-Bretanha em uma região que ela considerava dentro de sua própria esfera. Kissinger trata o telegrama menos como política colonial coerente do que como manobra de relações públicas. Satisfez o sentimento nacionalista alemão, mas prejudicou por anos a perspectiva de uma aliança anglo-alemã.

A questão naval transformou irritação em conflito estratégico. A Alemanha começou a construir uma grande frota sob pressão de grupos “navalistas” compostos por interesses industriais e navais. Nenhuma questão tinha maior probabilidade de voltar a Grã-Bretanha contra a Alemanha do que um desafio ao domínio dos mares. A Alemanha já possuía o exército mais forte da Europa; se também buscasse paridade naval com a Grã-Bretanha, líderes britânicos inevitavelmente perguntariam se a Alemanha mirava uma posição que nenhum outro Estado poderia tolerar com segurança. O programa naval deu à Grã-Bretanha uma razão direta para reconsiderar suas prioridades históricas.

Ainda houve tentativas de cooperação. Joseph Chamberlain defendia uma aliança “teutônica” entre Grã-Bretanha, Alemanha e Estados Unidos. Lord Lansdowne, que sucedeu Salisbury no Foreign Office, também acreditava que a Grã-Bretanha não podia mais depender do esplêndido isolamento. Contudo, o gabinete britânico iria apenas até um arranjo do tipo entente, e a Alemanha novamente rejeitou o alcançável pelo inalcançável. O chanceler Bülow queria adesão britânica à Tríplice Aliança e usava o programa naval como pressão. Salisbury rejeitou a exigência. Kissinger enfatiza a ironia: o arranjo que a Grã-Bretanha oferecia à Alemanha era semelhante ao que a França aceitou depois, e essa fórmula informal bastou para criar laços morais e militares que importaram em 1914.

A Grã-Bretanha então encontrou outro parceiro no Japão. A aliança anglo-japonesa de 1902 permitiu conter a Rússia no Extremo Oriente sem enredar a Grã-Bretanha na fronteira russo-alemã. Foi uma grande ruptura com o velho Concerto, porque a Grã-Bretanha buscou ajuda fora da Europa. Ao resolver o problema russo no Extremo Oriente por meio de um parceiro externo, a aliança reduziu a necessidade britânica da Alemanha. Com o tempo, a Alemanha mudou aos olhos britânicos de possível parceira para ameaça estratégica.

Mesmo em 1912, a Missão Haldane mostrou que um acordo anglo-alemão ainda era concebível. A Grã-Bretanha ofereceu neutralidade benevolente se qualquer lado se envolvesse em uma guerra na qual não pudesse ser chamado de agressor. O Kaiser exigiu neutralidade em linguagem que Londres temia poder cobrir uma guerra preventiva alemã contra a França ou a Rússia. A Alemanha rejeitou a fórmula britânica, o projeto naval avançou e outra oportunidade fracassou.

As ententes e os testes de força da Alemanha

A conduta alemã empurrou a Grã-Bretanha para a França. Em 1903, a Grã-Bretanha começou a resolver disputas coloniais com a França, e em 1904 a Entente Cordiale foi concluída. Formalmente, era um acordo colonial. Na prática, associava a Grã-Bretanha a um lado da divisão europeia e enfraquecia seu papel como equilibradora destacada. A diplomacia francesa teve sucesso em parte porque aceitava a ambiguidade. A França entendia que consulta, hábito e obrigação moral podiam importar em uma crise mesmo sem compromisso militar legal britânico.

A Alemanha tentou romper a Entente testando-a no Marrocos. Em 1905, Guilherme II desembarcou em Tânger e declarou apoio à independência marroquina, onde ambições francesas violavam acordos anteriores e interesses comerciais alemães existiam. Líderes alemães esperavam apoio diplomático dos Estados Unidos e de seus parceiros europeus. Presumiam que a Rússia estava enfraquecida pela guerra contra o Japão e esperavam que a Grã-Bretanha recuasse diante do apoio à França. Cada pressuposto se mostrou errado porque o medo da Alemanha superava outros interesses.

A primeira crise marroquina tornou-se uma derrota diplomática alemã. A Grã-Bretanha apoiou a França, a Áustria e a Itália evitaram a beira do abismo, e a Alemanha aceitou uma conferência em Algeciras em 1906 depois de ameaçar mais do que estava preparada para executar. Kissinger observa que um Estado reduz a credibilidade de suas ameaças quando ameaça guerra e depois aceita uma conferência meses mais tarde. Em Algeciras, Estados Unidos, Itália, Rússia e Grã-Bretanha recusaram apoiar a Alemanha. Em vez de enfraquecer a Entente, a Alemanha a fortaleceu. Depois da crise, Grã-Bretanha e França começaram consultas militares e navais, com a Grã-Bretanha mantendo seu aviso legal enquanto a França aceitava o valor prático das conversas de Estado-maior.

O passo seguinte foi a Entente Anglo-Russa de 1907. Como o acordo anglo-francês, começou como acerto colonial. A derrota da Rússia para o Japão reduziu suas ambições no Extremo Oriente, tornando mais fácil o compromisso com a Grã-Bretanha. A Grã-Bretanha ofereceu termos generosos na Pérsia e no Afeganistão: a Pérsia foi dividida em uma esfera russa no norte, uma zona central neutra e uma esfera britânica no sul, enquanto o Afeganistão ficou dentro da esfera britânica. O significado era maior que os detalhes coloniais. Para assegurar cooperação russa, a Grã-Bretanha estava preparada para relaxar sua antiga determinação de manter a Rússia fora dos Estreitos. A pressão alemã fizera a Grã-Bretanha tratar a Alemanha, mais do que a Rússia, como o maior perigo.

Kissinger dá importância especial ao Memorando Crowe de 1907 porque ele formulou o argumento estratégico britânico contra a Alemanha com clareza incomum. Sir Eyre Crowe argumentou que as intenções da Alemanha importavam menos que suas capacidades e sua conduta. A Alemanha podia buscar hegemonia conscientemente ou apenas perseguir comércio, cultura e influência pelo mundo. Nos dois casos, o resultado ainda poderia ser intolerável se o mesmo Estado combinasse o maior exército da Europa com uma marinha capaz de ameaçar a Grã-Bretanha. Os desafios globais indefinidos da Alemanha na África do Sul, no Marrocos e no Oriente Próximo faziam sua política parecer ilimitada, enquanto disputas francesas e russas com a Grã-Bretanha eram ao menos definíveis e, portanto, negociáveis.

Em 1909, o secretário das Relações Exteriores Edward Grey rejeitou uma proposta alemã para que a Grã-Bretanha permanecesse neutra em uma guerra alemã contra França e Rússia em troca de desaceleração na construção naval. Grey argumentou que tal neutralidade ajudaria a Alemanha a estabelecer hegemonia na Europa e, no futuro, voltaria o continente contra a Grã-Bretanha. Depois da formação da Tríplice Entente, o antigo jogo diplomático anglo-alemão tornou-se luta entre uma potência de status quo e uma potência que exigia mudança no equilíbrio. Com a flexibilidade perdida, mudanças no equilíbrio só poderiam vir por mais armamentos ou guerra.

Bósnia, Agadir e o endurecimento dos blocos

Mesmo depois da formação da Tríplice Entente, Kissinger insiste que a guerra não era inevitável em sentido mecânico simples. Poucas questões realmente justificavam uma guerra geral. A Grã-Bretanha e a Rússia não lutariam apenas para recuperar a Alsácia-Lorena para a França, e a Alemanha dificilmente apoiaria em circunstâncias calmas uma guerra austríaca de agressão nos Bálcãs. Uma política de contenção poderia ter permitido que a coalizão antinatural de Grã-Bretanha, França e Rússia se afrouxasse com o tempo. Em vez disso, cada crise virou teste de coesão aliada, e cada desafio alemão apertou a Entente.

A crise bósnia de 1908 mostrou como uma questão balcânica local podia humilhar uma grande potência e envenenar o sistema. A Bósnia-Herzegovina havia sido colocada sob administração austríaca enquanto permanecia sob suserania otomana depois do Congresso de Berlim. Sua população religiosa e nacionalmente mista tornava explosiva a soberania. A Áustria evitara por muito tempo a anexação direta porque não queria mais súditos eslavos e porque o arranjo, embora ambíguo, funcionara. Em 1908, temendo agitação sérvia e buscando uma demonstração de força, a Áustria anexou a Bósnia-Herzegovina.

A Rússia ficou indignada, sobretudo porque o território estava ligado aos resultados de uma guerra russa contra o Império Otomano. A Rússia ainda estava enfraquecida depois da derrota para o Japão, e a Grã-Bretanha e a França continuavam sem disposição para lutar por uma questão balcânica. A Alemanha apoiou firmemente a Áustria e exigiu reconhecimento russo e sérvio da anexação. A Rússia teve de ceder. Kissinger enfatiza que humilhar uma grande potência sem enfraquecê-la é perigoso. A Alemanha pensou ter ensinado à Rússia o preço de se opor a uma Áustria apoiada pela Alemanha. A Rússia aprendeu, em vez disso, que precisava evitar ser novamente surpreendida despreparada.

A crise colocou a Alemanha diretamente no caminho da Rússia em uma área onde a Alemanha não tinha interesse vital e onde Bismarck havia moderado a Áustria. Ao reabrir a memória da Guerra da Crimeia, repetiu um erro histórico: a Rússia nunca perdoara a postura hostil da Áustria naquele conflito, e agora a Alemanha se juntava à Áustria para impor outra humilhação. Kissinger descreve a diplomacia subsequente como um jogo de frango, com Estados correndo repetidamente rumo à confrontação e tomando cada escape anterior como prova de que o jogo era seguro. O perigo era que uma única falha em desviar fosse catastrófica.

A Alemanha em seguida desafiou a França na segunda crise marroquina de 1911. Quando tropas francesas entraram em Fez durante distúrbios, a Alemanha enviou a canhoneira Panther a Agadir. A opinião nacionalista alemã celebrou a ação decisiva e pressionou o governo a arriscar guerra se necessário. Mais uma vez, porém, os objetivos alemães eram pouco claros. Berlim queria intimidar a França e continuava incapaz de decidir se buscava um porto marroquino, parte da costa atlântica, compensação colonial em outro lugar ou apenas prestígio.

A Grã-Bretanha apoiou a França com mais firmeza do que em 1906. David Lloyd George, conhecido por instintos pacíficos e apoio a melhores relações com a Alemanha, advertiu publicamente que a paz comprada ao preço da humilhação nacional seria intolerável. A própria Áustria recusou apostar sua sobrevivência em uma aventura norte-africana. A Alemanha recuou e aceitou uma área grande, mas estrategicamente pobre, na África Central. Críticos alemães reclamaram que o império havia arriscado guerra mundial por compensação centro-africana ruim. Kissinger argumenta que o problema real era mais profundo: a Alemanha ameaçava repetidamente guerra sem definir um objetivo político que valesse o risco.

Depois de Agadir, a cooperação militar anglo-francesa tornou-se mais concreta. Em 1912, as três potências da Entente começaram conversas de Estado-maior, formalmente cercadas por ressalvas britânicas. No mesmo ano, o Tratado Naval Anglo-Francês deslocou a frota francesa para o Mediterrâneo enquanto a Grã-Bretanha assumia responsabilidade por defender a costa atlântica francesa. Em 1914, esse arranjo seria citado como razão moral para a entrada britânica na guerra, porque a França havia deixado sua costa do Canal exposta ao confiar na proteção britânica.

Constantinopla e a alienação final da Rússia

Em 1913, a Alemanha alienou ainda mais a Rússia por meio de outro movimento mal calculado, desta vez envolvendo o Império Otomano. A Alemanha aceitou reorganizar o exército turco e enviar um general alemão para comandar em Constantinopla. Guilherme II tornou o gesto mais provocador ao falar como se bandeiras alemãs pudessem logo tremular sobre o Bósforo. Para a Rússia, poucas ações poderiam ter sido mais alarmantes. Os Estreitos eram centrais para a vida econômica e estratégica do sul da Rússia, e a Rússia aceitara relutantemente seu controle por um Estado otomano fraco. Não aceitaria dominação dos Dardanelos por outra grande potência.

O ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Sazonov, disse ao czar que entregar os Estreitos a um Estado poderoso subordinaria o desenvolvimento econômico do sul da Rússia a esse Estado. Nicolau II advertiu que, se a Alemanha tentasse adquirir uma posição que lhe permitisse fechar a Rússia dentro do Mar Negro, a Rússia resistiria mesmo ao risco de guerra. A Alemanha acabou encontrando uma saída para salvar as aparências ao retirar o comandante do controle direto por meio de promoção, mas o dano político permaneceu. A Rússia concluiu que o apoio alemão à Áustria na Bósnia não fora uma exceção. O próprio Kaiser declarou em fevereiro de 1914 que as relações russo-prussianas estavam mortas e que os dois países haviam se tornado inimigos. Seis meses depois, a guerra começou.

O perigo final também estava na forma como as alianças mudavam os incentivos de cada membro. O sistema pré-guerra era mais volátil que a Guerra Fria porque qualquer membro de uma das coalizões podia iniciar uma crise e forçar seus parceiros a apoiá-lo. Na era nuclear, apenas os Estados Unidos e a União Soviética possuíam meios para lançar uma catástrofe geral, e nenhum deles podia delegar tal poder com segurança a aliados. Antes de 1914, parceiros menores ou mais fracos podiam puxar aliados mais fortes para a confrontação.

Por algum tempo, as alianças ainda contiveram seus membros. A França conteve a Rússia em disputas balcânicas, a Alemanha advertiu a Áustria de que seu apoio tinha limites, e a Grã-Bretanha pressionou a Rússia e a Sérvia durante os conflitos balcânicos. Na Conferência de Londres de 1913, a Grã-Bretanha ajudou a bloquear a anexação sérvia da Albânia, que a Áustria não toleraria. Contudo, essa conferência foi o último ato eficaz de gestão de crises antes da guerra. A Sérvia ressentia o apoio russo insuficiente, a Rússia ressentia a imparcialidade britânica e a cautela francesa, a Áustria ressentia o apoio alemão insuficiente, e os principais aliados temiam perder parceiros se parecessem pouco confiáveis na crise seguinte.

Depois disso, a manutenção das alianças tornou-se um fim em si mesma. A Alemanha aceitou o risco de guerra mundial para preservar a confiança da Áustria em questões sul-eslavas nas quais a Alemanha tinha pouco interesse nacional direto. A Rússia arriscou uma luta com a Alemanha para provar lealdade à Sérvia. A França, sob Raymond Poincaré, sinalizou que, se a Rússia fosse à guerra nos Bálcãs, a França a seguiria porque a Alemanha estava atrás da Áustria. Autoridades britânicas temiam que ambiguidade excessiva empurrasse a Rússia para a Alemanha. Em 1913, o Kaiser prometeu apoio à Áustria na próxima crise, e em julho de 1914 o chanceler alemão explicou que empurrar a Áustria adiante ou segurá-la trazia perigos, porque apoio insuficiente poderia fazer a Alemanha perder seu último aliado.

O julgamento final de Kissinger é que os líderes da Europa fracassaram em alinhar meios e fins. Eles possuíam armas modernas, exércitos de massa, sistemas de mobilização e coalizões interligadas enquanto ainda esperavam uma guerra curta e decisiva. Não compreenderam que alianças sem objetivos políticos racionais podiam destruir a civilização que deveriam proteger. O Concerto da Europa dependia de moderação, flexibilidade e capacidade de separar disputas locais da guerra geral. Em 1914, cada aliança tinha prestígio demais investido para permitir que essa diplomacia funcionasse. A máquina do juízo final fora construída por uma longa sequência de medos mal interpretados, ambições indefinidas, encenação pública e compromissos assumidos para preservar alianças que haviam deixado de servir a um propósito político racional.


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