Historia Mundum

Resumo: Diplomacia, de Kissinger — Capítulo 8 — A “Máquina do Juízo Final” militar

Detalhe da capa do livro Diplomacy, de Henry Kissinger. A imagem mostra grandes letras serifadas marrons formando Henry Kissinger na metade superior, uma linha horizontal preta no centro e o título Diplomacy em letras serifadas vermelhas abaixo, sobre fundo branco simples, sem pessoas, sala, paisagem ou cena histórica.

Este capítulo situa sua crise no argumento mais amplo de Kissinger sobre diplomacia, poder e ordem internacional.

Em 1994, Henry Kissinger publicou o livro Diplomacia. Ele foi um acadêmico e diplomata renomado, tendo servido como Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado dos Estados Unidos. Seu livro oferece um extenso panorama da história das questões internacionais e da arte da diplomacia, com foco particular no século XX e no mundo ocidental. Kissinger, conhecido por seu alinhamento com a escola realista das Relações Internacionais, trata dos conceitos de equilíbrio de poder, razão de Estado e Realpolitik em diferentes épocas.

Sua obra foi amplamente elogiada pelo seu alcance e pelo seu detalhismo. Todavia, ela também enfrentou críticas por seu foco em indivíduos em detrimento de forças estruturais, e por apresentar uma visão reducionista da história. Além disso, alguns críticos também alegaram que o livro se concentra excessivamente no papel individual de Kissinger nos eventos, potencialmente superestimando sua influência sobre eles. De qualquer forma, as ideias do livro merecem ser consideradas.

Este artigo apresenta um resumo das ideias de Kissinger no oitavo capítulo de seu livro, cujo título é "A “Máquina do Juízo Final” militar".

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A mobilização substitui o julgamento político

Para Kissinger, o fato espantoso de 1914 foi o desastre ter sido adiado por tanto tempo antes que uma crise finalmente o produzisse. Alemanha e Áustria-Hungria enfrentavam a Tríplice Entente em uma atmosfera de gravidade crescente, mas a diplomacia ainda se movia no ritmo antigo da consulta e da conferência. O planejamento militar exigia velocidade. Como os líderes políticos haviam permitido que cronogramas militares adquirissem autoridade autônoma, a gestão de crises já não conseguia acompanhar o planejamento de guerra.

A mudança decisiva começou durante a negociação da aliança militar franco-russa em 1892. Tradicionalmente, alianças giravam em torno do casus belli, a condição que obrigava um Estado a apoiar outro depois que um adversário tivesse iniciado hostilidades. Nikolai Obruchev, o negociador militar russo, argumentou que as condições modernas haviam tornado esse padrão obsoleto. A questão decisiva passou a ser quem mobilizava primeiro, e não quem disparava primeiro. Um Estado que atrasasse a mobilização corria o risco de perder o benefício de seus aliados e permitir que o inimigo derrotasse cada adversário separadamente.

Esse raciocínio transformou alianças de promessas de apoio em obrigações de mobilizar rapidamente e ao mesmo tempo. Depois que a mobilização começava, interrompê-la deixaria um Estado em desvantagem crescente caso o inimigo continuasse, enquanto uma parada mútua exigiria coordenação que talvez demorasse mais que a própria mobilização. O gatilho prático da guerra, portanto, passou a ser a mobilização, não a agressão.

Obruchev recebeu esse resultado com aprovação porque considerava a guerra localizada perigosa para a Rússia. Se a Rússia lutasse sozinha contra a Áustria, a Alemanha poderia esperar até que a Rússia estivesse exausta e depois ditar a paz, como ele acreditava que Bismarck fizera após a Guerra Russo-Turca. O interesse russo, portanto, estava em tornar geral toda guerra europeia. Um conflito austro-russo limitado deixaria liberdade demais à Alemanha; uma guerra geral obrigaria a França a agir.

A convenção militar de 4 de janeiro de 1894 incorporou essa doutrina. França e Rússia concordaram em mobilizar juntas se qualquer membro da Tríplice Aliança se mobilizasse por qualquer motivo. Um movimento austríaco contra a Sérvia poderia, assim, obrigar a França a se mobilizar contra a Alemanha, e um movimento italiano contra a França poderia trazer a Rússia para a ação. Uma grande mobilização podia ativar todo o sistema de alianças.

Kissinger enfatiza que os objetivos políticos ligados a esse mecanismo eram amplos e vagos. O czar Alexandre III entendia que a vitória contra a Alemanha poderia significar a fragmentação alemã, enquanto as expectativas alemãs eram igualmente expansivas e pouco claras. O equilíbrio de poder deixou de ser um sistema flexível para limitar conflitos e tornou-se uma disputa em que líderes contemplavam destruição nacional sem explicar qual disputa a justificava.

O Plano Schlieffen e a armadilha estratégica

O Estado-Maior alemão deu forma operacional à mesma lógica. Alfred von Schlieffen buscou um plano que escapasse do medo alemão de cerco por França e Rússia. Ao fazê-lo, abandonou o pensamento militar mais político de Helmuth von Moltke, que havia desenhado a estratégia por trás das guerras de unificação de Bismarck.

Moltke imaginara uma guerra em duas frentes em termos que ainda deixavam espaço para a diplomacia. A Alemanha dividiria suas forças entre Leste e Oeste, defenderia os dois fronts, derrotaria ataques inimigos e depois buscaria uma paz de compromisso. O desejo francês de recuperar a Alsácia-Lorena provavelmente produziria uma ofensiva que a Alemanha poderia repelir, enquanto forças russas poderiam ser empurradas longe o bastante para criar poder de barganha.

Schlieffen rejeitou essa contenção. Como se esperava que a mobilização russa levasse semanas e a geografia russa tornasse improvável uma vitória rápida no Leste, a Alemanha primeiro esmagaria a França. Uma vez que as fortificações francesas bloqueavam a rota direta, o Exército alemão atravessaria a Bélgica neutra, tomaria Paris e prenderia o Exército francês pela retaguarda. Depois, a Alemanha transferiria suas forças para o Leste antes que a Rússia estivesse plenamente pronta.

Para Kissinger, o plano era brilhante no desenho e imprudente no efeito político. Ele presumia que a Bélgica poderia ser violada sem levar a Grã-Bretanha decisivamente à guerra, embora a política britânica resistisse havia muito tempo à dominação dos Países Baixos por qualquer grande potência. Além disso, deixava pouco espaço real para o fracasso. Caso a Alemanha fracassasse em destruir a França rapidamente, seria forçada à guerra defensiva de Moltke depois de invadir a Bélgica e destruir a possibilidade de compromisso.

O plano criou um dilema político absurdo. A crise mais provável começaria na Europa oriental, mas o plano de guerra alemão exigia um ataque imediato no Oeste. Se a França permanecesse neutra durante uma crise balcânica, a Alemanha ainda temeria um ataque francês posterior, depois que a Rússia completasse a mobilização. Schlieffen, portanto, definiu uma neutralidade francesa aceitável de modo tão severo que nenhuma grande potência poderia aceitá-la: a França teria de entregar grandes fortalezas como garantias.

Essa fusão de alianças rígidas e estratégias de gatilho rápido significava que uma disputa balcânica poderia produzir batalhas na Bélgica e na França entre Estados com pouco interesse direto no evento original. Diplomatas, intimidados pelo nacionalismo e pela autoridade militar, deixaram de exigir planos que ajustassem ação militar a propósito político.

Advertências ignoradas antes da crise

Kissinger ressalta a escassez de advertências sérias antes de 1914. Uma exceção veio de Peter Durnovo, ex-ministro do Interior russo, que escreveu um memorando ao czar em fevereiro de 1914. Durnovo previu que a Rússia arcaria com o principal fardo de uma guerra continental porque a Grã-Bretanha pouco poderia contribuir em terra e a França provavelmente lutaria defensivamente.

Durnovo argumentou que mesmo a vitória traria poucos ganhos. Novos territórios poloneses ou ucranianos aprofundariam pressões centrífugas dentro do Império Russo, o controle dos Dardanelos não garantiria acesso seguro ao mar aberto, e a guerra arruinaria a Rússia se ela perdesse enquanto exauriria a Alemanha se a Rússia vencesse. Acima de tudo, ele previu uma revolução social começando no país derrotado e depois se espalhando para fora.

Não há evidência de que Nicolau II tenha absorvido essa advertência, e Kissinger não encontra análise comparável em outras capitais. Bethmann-Hollweg chegou mais perto em observações dispersas: ele via que a Alemanha havia desestabilizado a Europa ao desafiar todos sem enfraquecer ninguém, e que precisava de cautela em relação à Rússia e à Grã-Bretanha para manter a França contida. Em 1913, porém, esse discernimento chegou tarde demais.

O ultimato da Áustria e o cheque em branco da Alemanha

A crise imediata começou em 28 de junho de 1914. Nesse dia, Franz Ferdinand, herdeiro do trono dos Habsburgos, foi assassinado em Sarajevo. Kissinger trata o episódio como quase acidental em sua mecânica, mas catastrófico em suas consequências. A primeira tentativa fracassou, e o encontro fatal ocorreu apenas depois que o motorista do arquiduque tomou um caminho errado e parou perto do assassino. Até o funeral reduziu oportunidades de diplomacia informal porque a esposa do arquiduque não tinha status real e os monarcas europeus não se reuniram.

A Áustria ainda poderia ter agido dentro de limites, mas a Alemanha lhe deu encorajamento. Em 5 de julho, o Kaiser Wilhelm II instou o embaixador austríaco a agir rapidamente contra a Sérvia, e Bethmann-Hollweg confirmou em 6 de julho que a Áustria poderia contar com apoio alemão fosse qual fosse sua escolha. A Áustria recebeu assim o cheque em branco que desejava havia muito tempo, agora ligado a uma queixa real. Wilhelm então partiu em um cruzeiro para a Noruega, aparentemente sem esperar uma guerra europeia.

Líderes alemães acreditavam que a Rússia não estava pronta e aceitaria a humilhação da Sérvia como havia aceitado a anexação austríaca da Bósnia-Herzegovina em 1908. Além disso, pensavam que um movimento austríaco bem-sucedido poderia enfraquecer a confiança russa na Tríplice Entente e afrouxar o cerco à Alemanha. Mais uma vez, interpretaram mal seus adversários. A Rússia entendeu o movimento austríaco como uma tentativa apoiada pela Alemanha de destruir sua posição restante nos Bálcãs ao reduzir a Sérvia, sua aliada regional mais confiável, à dependência.

Kissinger rejeita a ideia de que a Alemanha tivesse um plano coerente de longo alcance em julho de 1914. Diplomatas russos atribuíram depois a crise a esquemas alemães de dominação na Europa Central, mas isso dava crédito demais a Berlim. O problema mais profundo era que nenhuma potência estava preparada para recuar e cada governo se concentrava em compromissos formais, não no interesse europeu comum. A guerra começou porque tratados foram executados mecanicamente em um sistema sem a legitimidade de Metternich nem a Realpolitik flexível de Bismarck.

A Áustria então agravou o perigo por meio de demora seguida de pressa. Esperou semanas, em parte porque o primeiro-ministro húngaro Stephen Tisza hesitava em arriscar o império. Quando Viena emitiu seu ultimato de quarenta e oito horas à Sérvia em 23 de julho, boa parte da simpatia europeia inicial pelo assassinato havia desaparecido. O ultimato foi desenhado para ser inaceitável e impedir a mediação, embora o próprio cronograma de mobilização da Áustria fosse lento. O país menos governado por horários modernos de mobilização pôs em movimento uma crise que seria decidida por eles.

Grã-Bretanha, Rússia e as noventa e seis horas

A Grã-Bretanha estava na melhor posição para frear a reação em cadeia, mas hesitou. Tinha pouco interesse na disputa balcânica e temia a guerra, mas também temia uma vitória alemã e queria preservar a Tríplice Entente. Um aviso britânico claro de que se juntaria à França e à Rússia poderia ter levado a Alemanha a conter a Áustria. Entretanto, líderes britânicos também queriam preservar espaço para mediação. Ao tentar permanecer, ao mesmo tempo, como mediadora potencial e parceira implícita da Entente, a Grã-Bretanha ficou entre duas políticas.

Edward Grey podia dizer com verdade que a Grã-Bretanha não tinha obrigação legal de lutar ao lado da França e da Rússia. Ainda assim, uma obrigação estratégica e moral havia se desenvolvido porque a França concentrara sua frota no Mediterrâneo sob entendimentos navais com a Grã-Bretanha, deixando sua costa norte exposta. Grey recusou a oferta alemã de poupar essa costa em troca da neutralidade britânica porque acreditava que a Grã-Bretanha seria desonrada e ameaçada se negociasse à custa da França e da Bélgica. Ao reter uma declaração firme desde cedo, porém, a Grã-Bretanha tornou-se espectadora enquanto cronogramas de mobilização ultrapassavam a diplomacia.

Enquanto isso, a Rússia se sentia encurralada. A Bulgária se movia em direção à Alemanha, a Áustria havia anexado a Bósnia-Herzegovina e agora ameaçava a Sérvia, e a influência alemã em Constantinopla parecia ameaçar ambições russas em torno dos Estreitos. Nicolau II temia a guerra e reconhecia que seria difícil pará-la depois de iniciada. Ainda assim, autoridades como Aleksandr Krivoshein argumentavam que o prestígio russo entre os eslavos e nos Bálcãs ruiria se a Rússia cedesse novamente. Nicolau suprimiu suas dúvidas e escolheu apoiar a Sérvia, embora inicialmente tenha parado antes da mobilização total.

A resposta sérvia de 25 de julho ao ultimato austríaco foi inesperadamente conciliatória, aceitando quase todas as exigências austríacas. O Kaiser pensou que a crise talvez estivesse encerrada, mas a Áustria estava determinada a usar o apoio alemão já oferecido. Em 28 de julho, a Áustria declarou guerra à Sérvia mesmo sem estar pronta para operações militares sérias. Nicolau ordenou mobilização parcial contra a Áustria, apenas para descobrir que o planejamento russo previa, na prática, mobilização geral contra Áustria e Alemanha.

Generais russos, moldados pela doutrina de Obruchev, pressionaram por mobilização total. A Alemanha então advertiu em 29 de julho que qualquer mobilização russa ameaçava seu cronograma, que dependia de derrotar a França antes que a Rússia estivesse plenamente preparada. Nicolau não podia interromper o processo sem arruinar o planejamento russo e humilhar o Estado. Em 30 de julho, ordenou mobilização total. A Alemanha exigiu seu cancelamento em 31 de julho e depois declarou guerra à Rússia quando a exigência foi ignorada. Kissinger sublinha o absurdo: Alemanha e Rússia entraram em guerra sem negociação séria sobre a crise nem disputa direta proporcional a uma guerra entre elas.

A maquinaria assume o comando

A declaração alemã contra a Rússia ativou o Plano Schlieffen. O Kaiser tentou tardiamente redirecionar a mobilização para o Leste e evitar guerra imediata com a França, mas o Estado-Maior não tinha alternativa viável. Como o czar, ele descobriu que o sistema militar que autorizara não podia ser conduzido depois de posto em movimento. Em 1º de agosto, a Alemanha perguntou à França se ela permaneceria neutra. A França respondeu que seguiria seu interesse nacional. Como o plano exigia ação no Oeste, a Alemanha fabricou incidentes de fronteira, declarou guerra à França e invadiu a Bélgica no mesmo dia. A Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha em 4 de agosto.

Um conflito balcânico secundário havia, assim, se tornado uma guerra mundial por meio de compromissos e cronogramas. A disputa da Áustria com a Sérvia levou à invasão da Bélgica, o que tornou inevitável a entrada britânica. Enquanto isso, tropas austríacas ainda não haviam lançado sua principal ofensiva contra a Sérvia quando as batalhas decisivas já estavam sendo travadas no Oeste. A geografia e a escala da guerra foram determinadas menos pela disputa original do que por planos desenhados para outro pesadelo estratégico.

A Alemanha logo aprendeu que certeza na guerra é ilusão. Ao implementar o Plano Schlieffen, sacrificou qualquer esperança de neutralidade britânica sem alcançar a rápida destruição do Exército francês. Ironicamente, perdeu a batalha ofensiva no Oeste e venceu defensivamente no Leste, muito como a estratégia mais antiga de Moltke havia previsto. A Alemanha foi então forçada a uma postura defensiva no Oeste depois de escolher uma política que tornava o compromisso politicamente impossível.

O julgamento final de Kissinger é que o Concerto da Europa fracassou porque a liderança política abdicou. Nenhum congresso europeu foi tentado, embora conferências desse tipo tivessem criado antes tempo para esfriamento ou acordo. Líderes haviam planejado todas as contingências, exceto o tempo necessário para a conciliação. Ao fim, cerca de 20 milhões de pessoas estavam mortas, o Império Austro-Húngaro havia desaparecido e as dinastias alemã, austríaca e russa haviam caído. O gatilho original depois pareceu quase secundário diante da devastação, enquanto a Europa enfrentava a tarefa de construir uma nova ordem em meio a exaustão, paixão e colapso.


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